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O argumento cosmológico kalam

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1 O argumento cosmológico kalam em Dom Jan 31, 2010 6:40 pm

O argumento cosmológico kalam

http://www.debate.org/opinions/is-there-any-rational-evidence-for-the-existence-of-god

Podemos chegar a quatro conclusões como o universo começou .

1) O Universo foi criado por nada .
2) O Universo criou a si mesmo.
3) O Universo foi criado por algo que também foi criado, com um número infinito de eventos que vão para trás na criação.
4) O Universo foi criado por algo incriado .

Números 1 e 2 já podemos cortar , eles são contra as leis básicas da ciência. Nada pode criar algo , então, basicamente , dizendo: algo não pode vir do nada .

Da mesma forma, o universo não pode criar a si mesmo se em um ponto que não existia.

Caso digamos que os números 1 e 2 foram as respostas por trás da criação deste universo ,  isso significa que um elefante aleatório pode aparecer do nada , se formos por esse tipo de lógica. Que mundo seria esse em qual viveríamos......

Passando para o número 3, dizendo que o universo foi criado por algo , o que faz sentido . Mas foi algo que também criou ? E se assim for , o que criou ISSO?  Agora aqui está o problema porque o número 3 não pode ser. Você não pode ter um número infinito de eventos onde algo cria outra coisa , o que cria uma outra coisa , que eventualmente chega à criação do universo . Isso é ilógico.

Pense nisso desta maneira . Se eu quisesse comer uma maçã , mas eu precisava de pedir ao meu amigo para a permissão, mas antes do meu amigo pode me dar a permissão , ele tem que pedir o seu amigo para permissão e, em seguida, seu amigo precisa perguntar a seu amigo para a permissão. E ele continua indo e indo , a cadeia de amigo de seus amigos pedindo permissão. Se isso continuar acontecendo, quando serei capaz de comer essa maçã ? Nunca.

Aplicamos esta analogia  ao universo. O passado não pode continuar para sempre. Se fosse para sempre, então o tempo nunca chegaria aqui. Nós nunca existiriamos , nunca estariamos aqui. Nada agora existiria, se o passado continuar para sempre.

Isso nos deixa com o argumento único remanescente e racional , n º 4 .

Este universo foi criado por algo que é incriado . Esta entidade incriada , nós simplesmente chamamos  o Criador ... Ou ... Deus , em termos religiosos .

Esta é a lógica à prova de idiotas , e ninguém pode negá-la. Isso tudo é ciência.




http://www.monergismo.com/textos/apologetica/Argumento_Cosmologico_Kalam_Isaias.pdf

SÍNTESE DO ARGUMENTO COSMOLÓGICO KALAM
Eis o resumo de um dos mais eficientes argumentos para a existência de Deus. Em breve o argumento será detalhado na íntegra, com adição de fontes e referências de leitura.

http://filosofiaeapologtica.blogspot.com/2009/10/sintese-do-argumento-cosmologico-kalam.html

1)Tudo que tem princípio tem uma causa além de si pois o nada não existe e não pode causar, e não é possível existir antes de si mesmo para causar a própria existência.

2)O Universo de espaço-tempo teve princípio. Se o Universo fosse eterno o momento presente jamais chegaria pois uma quantidade ilimitada de momentos teria de antecedê-lo.

3)Logo o Universo de espaço-tempo teve uma causa. Desde que o Universo é finito, mutável e temporal, conclui-se portanto que a Causa Primeira é infinita, imutável e atemporal.

4)A Causa Primeira é ilimitada e portanto é única. Duas ou mais causas se limitariam mutuamente.

5)A Causa Primeira é pessoal. Se ela fosse impessoal e eterna ela co-existiria eternamente com a sua criação, desde que a criação seria produzida automaticamente.



Última edição por Elohim888 em Dom Maio 18, 2014 7:00 am, editado 2 vez(es)

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2 Re: O argumento cosmológico kalam em Dom Jan 31, 2010 6:42 pm

A EXISTÊNCIA DE DEUS E O INÍCIO DO UNIVERSO

William Lane Craig
http://www.apologia.com.br/?p=65

Traduzido e adaptado por Wagner Kaba

Neste artigo, o filósofo cristão Dr. William Lane Craig apresenta uma versão do argumento cosmológico em favor da existência de Deus. Com base em dois argumentos filosóficos e duas confirmações científicas ele demonstra que é plausível que o universo teve um começo. Como tudo o que começa a existir tem uma causa, deve haver uma causa transcendente para o universo.

Dr. William Lane Craig possui doutorados pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e pela Universidade de Munique, na Alemanha.


INTRODUÇÃO

“A primeira questão que certamente deve ser perguntada”, escreveu G.W.F. Leibiniz, é “Por que existe algo em vez de nada?” 1. Esta questão parece ter uma força existencial profunda, que tem sido percebida por alguns dos maiores pensadores da humanidade. De acordo com Aristóteles, a filosofia começa com um senso de assombro sobre o mundo, e a mais profunda questão que um homem pode fazer relaciona-se com a origem do universo2. Em sua biografia de Ludwig Wittgenstein, Norman Malcolm relata que Wittgenstein disse que algumas vezes ele teve certa experiência que poderia ser mais bem descrita dizendo-se que “quando a tenho, eu fico assombrado com a existência do mundo. Então sou inclinado a usar frases como ‘Quão extraordinário é que algo deva existir’” 3 Similarmente, um filósofo contemporâneo observa, “… Minha mente muitas vezes revira-se diante do imenso significado que esta questão tem para mim. Que algo exista de alguma forma parece-me um assunto para o mais profundo temor.” 4

Por que existe algo em vez de nada? Leibiniz respondeu esta questão argumentando que algo existe em vez de nada porque existe um ser necessário que carrega consigo sua razão para a existência e é a razão suficiente para a existência de todo ser contingente5.

Embora Leibiniz (seguido por certos filósofos contemporâneos) tenha considerado a inexistência de um ser necessário como logicamente impossível, uma explicação mais modesta da necessidade da existência chamada de “necessidade factual” foi fornecida por John Hick: um ser necessário é um ser eterno, não-causado, indestrutível e incorruptível6. Leibiniz, é claro, identificou o ser necessário como Deus. Seus críticos, entretanto, contestaram esta identificação, sustentando que o universo material poderia ele mesmo receber o status de um ser necessário. “Por que”, perguntou Hume, “não poderia o universo material ser o Ente necessário, de acordo com esta pretensa explicação de necessidade?”7. Tipicamente, esta tem sido precisamente a posição do ateu. Os ateus não se sentiram compelidos a abraçar a visão de que o universo veio a existir do nada sem nenhuma razão; ao invés disso, eles consideraram o universo mesmo como um tipo de ser factualmente necessário: o universo é eterno, não-causado, indestrutível e incorruptível. Como Russel claramente colocou, “…O universo está aí, e isto é tudo”8

Será que o argumento de Leibniz nos deixa, portanto, em um impasse racional ou será que não existem mais recursos disponíveis para desvendar o mistério da existência do mundo? Parece-me que existem. É lembrado que uma propriedade essencial de um ser necessário é a eternidade. Se, então, puder se demonstrar plausível que o universo começou a existir e, portanto, não é eterno, até este ponto poder-se-ia demonstrar a superioridade do teísmo como uma cosmovisão racional.

Assim, há uma forma do argumento cosmológico muito negligenciada hoje, mas de grande importância histórica, que objetiva precisamente demonstrar que o universo teve um início no tempo9. Originada dos esforços dos teólogos cristãos para refutar a doutrina Grega da eternidade da matéria, este argumento desenvolveu-se em formulações sofisticadas através de teólogos Judeus e Islâmicos, que, em seguida, transmitiram-no de volta ao Ocidente Latino. O argumento, portanto, tem um vasto apelo inter-sectário, tendo sido defendido por Muçulmanos, Judeus e Cristãos, tanto Católicos como Protestantes.

O argumento, que denominei como argumento cosmológico de kalam, pode ser demonstrado como se segue:

1. Tudo que começa a existir tem uma causa para
sua existência.
2. O universo começou a existir.
2.1 Argumento baseado na impossibilidade de
um infinito real.
2.11 Um infinito real não pode existir.
2.12 Um regresso temporal infinito de
eventos é um infinito real.
2.13 Portanto, um regresso temporal
infinito de eventos não pode existir.
2.2 Argumento baseado na impossibilidade da
formação de um infinito real pela adição
sucessiva.
2.21 Uma coleção formada por sucessivas
adições não pode ser realmente
infinita.
2.22 A série temporal de eventos passados
é uma coleção formada por sucessivas
adições.
2.23 Portanto, uma série temporal de
eventos passados não pode ser
realmente infinita.
3. Portanto, o universo tem uma causa para a sua
existência.
Vamos examinar este argumento mais de perto.

DEFESA DO ARGUMENTO COSMOLÓGICO DE KALAM

SEGUNDA PREMISSA

Claramente, a premissa crucial neste argumento é (2), e dois argumentos independentes são oferecidos em suporte dele. Vamos, então, passar a examinar os argumentos que o amparam.

PRIMEIRO ARGUMENTO DE SUPORTE

Para se entender (2.1), precisamos entender a diferença entre um infinito potencial e um infinito real. Grosso modo, um infinito potencial é uma coleção que cresce em direção ao infinito como limite, mas nunca chega lá. Tal coleção é realmente indefinida, não infinita. O símbolo para este tipo de infinito, que é usado em cálculo é . Um infinito real é uma coleção em que o número de membros realmente é infinito. A coleção não está crescendo em direção ao infinito, ela é infinita, ela é “completa”. O símbolo para este tipo de infinito, que é usado na teoria dos conjuntos para designar conjuntos que possuem um número infinito de membros, tais como {1,2,3,…}, é . Ora, (2.11) sustenta, não que um número infinito potencial não possa existir, mas que um número infinito real de coisas não pode existir. Pois se um número real de coisas pode existir, então isto geraria todo tipo de absurdos.

Talvez a melhor maneira de trazer à tona a verdade de (2.11) é através de uma ilustração. Deixe-me usar uma de minhas favoritas, o Hotel de Hilbert, um produto da mente do grande matemático alemão, David Hilbert. Vamos imaginar um hotel com um número finito de quartos. Suponha, além disso, que todos os quartos estão ocupados. Quando um novo hóspede chega pedindo por um quarto, o proprietário se desculpa, “Sinto muito, todos os quartos estão ocupados”. Mas vamos imaginar um hotel com um número infinito de quartos e suponha mais uma vez que todos os quartos estão ocupados. Não há um simples quarto vago em todo o hotel infinito. Deste modo, suponha que um novo hóspede apareça pedindo por um quarto. “Mas é claro!” diz o proprietário, e ele imediatamente transfere a pessoa do quarto número 1 para o quarto número 2, a pessoa do quarto número 2 para o quarto número 3, a pessoa do quarto número 3 para o número 4, e assim por diante até o infinito. Como resultado desta mudança de quartos, o quarto número 1 agora se tornou vago e o novo hóspede faz o check-in com gratidão. Mas lembre-se, antes de ele ter chegado, todos os quartos estavam ocupados! Igualmente curioso, de acordo com os matemáticos, não há agora mais pessoas no hotel do que havia antes: o número é simplesmente infinito. Mas como isso pode acontecer? O proprietário acabou de adicionar o nome do novo hóspede no registro e deu-lhe suas chaves - como pode não haver mais uma pessoa no hotel do que antes? Mas a situação se torna ainda mais estranha. Suponha que um número infinito de novos hóspedes apareça no balcão pedindo por quartos. “É claro, é claro!” diz o proprietário, e ele prossegue em mudar a pessoa do quarto 1 para o quarto 2, a pessoa do quarto 2 para o quarto 4, a pessoa do quarto 3 para o quarto 6, e assim por diante infinitamente, sempre colocando cada ocupante original em um quarto cujo número seja o dobro do seu próprio. Como resultado, todos os quartos de número ímpar se tornarão vagos, e o número infinito de novos hóspedes é facilmente acomodado. Ainda assim, antes de eles chegarem, todos os quartos estavam ocupados! E novamente, de modo bastante estranho, o número de hóspedes no hotel é o mesmo depois do número infinito de novos hóspedes terem feito check-in, ainda que tenha havido tantos novos hóspedes quanto hóspedes antigos. De fato, o proprietário poderia repetir este processo infinitas vezes e ainda assim nunca haveria um único hóspede a mais no hotel do que antes.

Mas o Hotel de Hilbert é ainda mais estranho do que o matemático alemão demonstrou ser. Suponha que alguns dos hóspedes comecem a sair. Suponha que o hóspede no quarto 1 parta. Existe agora uma pessoa a menos no hotel? Não de acordo com os matemáticos - mas simplesmente pergunte para a mulher que arruma as camas! Suponha que os hóspedes dos quartos 1,3,5,… partam. Neste caso, um número infinito de pessoas deixou o hotel, mas de acordo com os matemáticos, não há menos pessoas no hotel - mas não converse com a mulher da lavanderia! Na verdade, poderíamos fazer com que cada hóspede saísse do hotel e repetir este processo infinitamente muitas vezes, e ainda não haveria menos pessoas no hotel. Mas, em vez disso, suponha que as pessoas dos quartos 4,5, 6,… partam. Em uma simples tirada o hotel se tornaria virtualmente vazio, o registro de hóspedes reduzido a três nomes, e o infinito convertido em finitude. E mesmo assim continuaria sendo verdadeiro que o mesmo número de hóspedes partiu desta vez como da vez em que os hóspedes dos quartos 1,3,5,… partiram. Alguém pode acreditar sinceramente que tal hotel possa existir realmente? Estes tipos de absurdos ilustram a impossibilidade da existência de um número infinito real de coisas.

Isto nos leva a (2.12). A verdade desta premissa parece claramente óbvia. Se o universo nunca começou a existir, então antes de agora houve um número infinito de eventos prévios. Portanto, uma série de eventos sem começo no tempo implica a existência de um número infinito real de coisas, ou seja, eventos passados.

Neste ponto pode ser proveitoso considerar algumas objeções que podem ser levantadas contra o argumento. Primeiro, vamos considerar as objeções a (2.11). Wallace Matson objeta que a premissa deve significar que um número infinito real de coisas é logicamente impossível; mas que é fácil mostrar que tal coleção é logicamente possível. Por exemplo, a série de números negativos {…-3,-2,-1} é uma coleção infinita real sem um primeiro membro10. O erro de Matson está em pensar que (2.11) significa afirmar a impossibilidade lógica de um número infinito real de coisas. O que a premissa expressa é a impossibilidade real ou factual de um infinito real. Para ilustrar a diferença entre a possibilidade lógica e a real: não há impossibilidade lógica de alguma coisa vir a existir sem uma causa, mas tal circunstância pode muito bem ser impossível de modo real ou metafísico. Da mesma forma, (2.11) declara que os absurdos conseqüentes na existência real de um infinito real mostram que tal existência é metafisicamente impossível. Portanto, alguém pode conceder que na esfera conceitual da matemática seja possível, dadas certas convenções e axiomas, falar consistentemente sobre séries infinitas de números, mas isto de maneira alguma implica que um número infinito real de coisas seja realmente possível. Pode-se notar também que a escola matemática de intuicionismo nega até mesmo que a série de números seja realmente infinita (eles consideram-na potencialmente infinita apenas), então apelar às séries de números como exemplos de infinitos reais é um procedimento controverso.

O falecido J.L. Mackie também objetou contra (2.11), declarando que os absurdos são resolvidos ao notar que para conjuntos infinitos o axioma “o todo é maior que suas partes” não é válido, como o é para conjuntos finitos11. Similarmente, Quentin Smith comenta que uma vez que entendemos que um conjunto infinito tem um subconjunto próprio com o mesmo número de membros quanto o próprio conjunto, as situações pretensamente absurdas tornam-se “perfeitamente críveis”12. Mas penso que é precisamente esta característica da teoria dos conjuntos infinitos que, quando interpretada para a esfera do real, produz resultados que são perfeitamente inacreditáveis, como por exemplo, o Hotel de Hilbert. Além disso, nem todos os absurdos derivam da negação pela teoria dos conjuntos infinitos do axioma de Euclides: os absurdos ilustrados pela saída dos hóspedes do hotel derivam dos resultados auto-contraditórios quando as operações inversas de subtração ou divisão são realizadas utilizando-se números transfinitos. Aqui o problema contra uma coleção infinita real de coisas torna-se decisiva.

Finalmente pode-se apontar a objeção de Sorabji, que sustenta que as ilustrações como as do Hotel de Hilbert não envolvem absurdos. Com o fim de se entender o que está errado com o argumento de kalam, ele pede-nos para imaginar duas colunas paralelas começando no mesmo ponto e expandindo-se na distância infinita, uma coluna de anos passados e a outra coluna de dias passados. A razão por que a coluna de dias passados não é maior do que a coluna de anos passados, diz Sorajbi, é que a coluna de dias não irá “expandir-se” além do distante fim da outra coluna, já que nenhuma das duas colunas possui um fim distante. No caso do Hotel de Hilbert há a tentação de se pensar que algum residente infortunado no fim distante irá cair no espaço. Mas não há fim distante: a linha de residentes não irá se expandir além do fim distante da linha de quartos. Uma vez que isto é compreendido, o produto é simplesmente uma verdade explicável -até mesmo surpreendente e regozijante - sobre o infinito13. Ora, Sorajbi certamente está correto, como vimos, em que o Hotel de Hilbert ilustra uma verdade explicável sobre a natureza do infinito real. Se um número realmente infinito de coisas pudesse existir, o Hotel de Hilbert seria possível. Mas Sorajbi parece falhar em entender o ponto principal do paradoxo: eu, por exemplo, não vejo tentação em pensar em pessoas caindo no fim distante do hotel, pois não há nenhum, mas tenho dificuldades em acreditar que um hotel em que todos os quartos estão ocupados possa acomodar mais hóspedes. É claro que a linha de hóspedes não irá se expandir além da linha de quartos, mas se todos esses quartos infinitos já possuem hóspedes neles, então será que mudar tais hóspedes de lugar pode realmente criar quartos vagos? A própria ilustração de Sorajbi das colunas de anos passados e de dias passados não é menos inquietante para mim: se dividirmos as colunas em segmentos do tamanho de um pé e marcarmos uma coluna como os anos e a outra como os dias, então uma coluna é tão longa como a outra e mesmo assim para cada segmento do tamanho de um pé na coluna de anos, são encontrados 365 segmentos de tamanho igual na coluna de dias! Estes resultados paradoxais podem ser evitados somente se as coleções de infinitos reais puderem existir apenas na imaginação, e não na realidade. De qualquer forma, a ilustração do Hotel de Hilbert não é exaurida por lidar apenas com a adição de novos hóspedes, pois a subtração de hóspedes resulta em absurdos até mesmo mais intratáveis. A análise de Sorajbi não faz nada para resolvê-las. Portanto, parece-me que as objeções à premissa (2.11) são menos plausíveis do que a premissa em si.

Com relação à (2.12), a objeção mais freqüente é que o passado deve ser considerado como um infinito potencial apenas, não como um infinito real. Esta foi a posição de Aquino contra Bonaventure, e o filósofo contemporâneo Charles Hartshorne parece se alinhar com Tomás neste ponto14. Tal posição, entretanto, é insustentável. O futuro é potencialmente infinito, já que ele não existe; mas o passado é real de um modo que o futuro não é, como evidenciado no fato de que possuímos traços do passado no presente, mas não traços do futuro. Portanto, se a série de eventos passados nunca começou a existir, então deve ter havido um número infinito real de eventos passados.

As objeções contra ambas as premissas, portanto, parecem ser menos convincentes do que as premissas em si. Juntas, elas implicam que o universo começou a existir. Portanto, eu concluo que este argumento fornece bons fundamentos para aceitar a verdade da premissa (2) que o universo começou a existir.

SEGUNDO ARGUMENTO DE SUPORTE

O segundo argumento (2.2) para o início do universo é baseado na impossibilidade de se formar um infinito real por adições sucessivas. Este argumento é distinto do primeiro no que ele não nega a possibilidade da existência de um infinito real, mas a possibilidade de este ser formado por adição sucessiva.

A premissa (2.21) é o passo crucial no argumento. Não se pode formar uma coleção infinita real de coisas por se adicionar sucessivamente um membro depois do outro. Desde que é possível sempre adicionar mais um antes de se chegar ao infinito, é impossível alcançar o infinito real. Algumas vezes isto é chamado de impossibilidade de “contar ao infinito” ou “atravessar o infinito”. É importante entender que esta impossibilidade não tem nada a ver com a quantidade de tempo disponível: faz parte da natureza do infinito que ele não pode ser assim formado.

Alguém pode dizer que enquanto uma coleção infinita não pode ser formada ao começar por um ponto e depois adicionar membros, todavia uma coleção infinita poderia ser formada sem nenhum início, mas terminando em um ponto, ou seja, terminando em um ponto após um membro após outro ter sido adicionado pela eternidade. Mas este método parece até mais inacreditável do que o primeiro método. Se não é possível contar até o infinito, então como é possível contar regressivamente do infinito? Se não é possível atravessar o infinito pelo mover em uma direção, como seria possível atravessá-lo pelo simples mover na direção oposta?

De fato, a idéia de uma série sem começo terminando no presente parece absurda. Para dar apenas uma ilustração: suponha que encontremos um homem que afirma ter contado através da eternidade e agora está terminando: …, -3, -2, -1,0. Poderíamos perguntar por que ele não terminou de contar ontem ou anteontem ou no ano passado? Até lá um tempo infinito já teria se passado, então ele já deveria ter terminado naquele tempo. Portanto, em nenhum ponto no passado infinito poderíamos encontrar o homem terminando sua contagem, porque em tal ponto ele já deveria ter terminado! De fato, não importa quão longe voltemos ao passado, nós nunca poderemos encontrar o homem terminando a contagem, pois em qualquer ponto que o alcançarmos ele já terá terminado. Mas se em nenhum ponto do passado podemos encontrar ele contando [até o fim], isto contradiz a hipótese de que ele esteve contando pela eternidade. Isto ilustra o fato de que a formação de um infinito real por adição consecutiva é igualmente impossível se alguém o faz até ou do infinito.

A premissa (2.22) pressupõe uma visão dinâmica do tempo no qual os eventos são realizados de modo serial, um depois do outro. A série de eventos não é um tipo de linha do mundo eternamente subsistente que aparece sucessivamente na consciência. Ao invés disso, tornar-se é real e essencial ao processo temporal. Esta visão do tempo não é livre de desafios, mas considerar suas objeções nos levaria muito longe15. No momento, é preciso satisfazer-se com o fato de que estamos argumentando no fundamento comum com nossas intuições ordinárias da transformação temporal e em concordância com um bom número de filósofos contemporâneos do tempo e do espaço.

Dadas as verdades de (2.21) e (2.22), a conclusão (2.23) segue logicamente. Se o universo não começou a existir em um tempo finito atrás, então o presente momento nunca poderia ter chegado. Mas obviamente, ele chegou. Então, sabemos que o universo é finito no passado e começou a existir.

Novamente, será proveitoso considerar várias objeções que têm sido oferecidas contra este raciocínio. Contra (2.21), Mackie objeta que o argumento assume indevidamente um ponto inicial infinitamente distante no passado e então declara impossível viajar daquele ponto até hoje. Mas não haveria um ponto inicial no passado infinito, nem mesmo um infinitamente distante. Mesmo assim, de qualquer ponto no passado infinito, há apenas uma distância finita até o presente16. Ora, parece-me que a alegação de Mackie de que o argumento pressupõe um ponto inicial infinitamente distante é inteiramente sem fundamento. A característica das séries não possuírem início serve apenas para acentuar a dificuldade de serem formadas pela adição cumulativa. O fato de não haver nenhum início, nem mesmo um infinitamente distante, torna o problema mais, não menos, perturbador. E o ponto que em qualquer momento do passado infinito possui apenas uma distância temporal finita até o presente pode ser descartado como irrelevante. A questão não é como qualquer porção finita das séries temporais pode ser formada, mas como toda série infinita pode ser formada. Se Mackie pensa que porque cada segmento das séries pode ser formado por adição cumulativa então toda a série inteira pode ser formada, então ele está simplesmente cometendo a falácia da composição.

Sorajbi similarmente objeta que a razão porque é impossível contar regressivamente do infinito é porque contar envolve por natureza pegar um número inicial, o que está faltando neste caso. Mas completar um lapso infinito de anos não envolve nenhum ano inicial e, portanto, é possível17. Entretanto, esta resposta é claramente inadequada, pois, como vimos, os anos de um passado infinito poderiam ser enumerados por números negativos, que no caso de um número infinito completo de anos implica, realmente, em uma contagem regressiva do infinito. Sorajbi, entretanto, antecipa esta objeção e afirma que tal contagem regressiva é possível em princípio e, portanto, nenhuma barreira lógica foi mostrada para o transcorrer de um número infinito de anos passados. Entretanto, novamente, a questão que estou colocando não é se existe uma contradição lógica em tal pensamento, mas se tal contagem não é metafisicamente absurda. Pois vimos que tal contagem não poderia em nenhum ponto ter sido completada. Mas Sorajbi novamente tem uma resposta pronta: dizer que a contagem não deve ter terminado em nenhum ponto confunde a contagem de um número infinito de anos com a contagem de todos os números. Em qualquer ponto do passado, o contador eterno já terá contado um número infinito de números, mas isto não implica que ele terá contado todos os números negativos. Eu não penso que o argumento faz esta alegação equivocada, e isto pode ser tornado claro examinando-se a razão porque nosso contador eterno é supostamente capaz de completar a contagem dos números negativos terminando em zero. De forma a justificar a possibilidade deste feito intuitivamente impossível, o argumento do oponente apela ao chamado Princípio da Correspondência usada na teoria dos conjuntos para determinar se dois conjuntos são equivalentes (ou seja, possuem o mesmo número de membros) ao comparar os membros de um conjunto com os membros do outro conjunto e vice versa. Com base neste princípio, o opositor argumenta que desde que o contador viveu, digamos, um número infinito de anos e desde que o conjunto de anos passados pode ser colocado em uma correspondência de um-a-um com o conjunto de números negativos, segue que ao contar um número por ano, um contador eterno iria completar a contagem de números negativos até o ano presente. Se perguntássemos por que o contador não poderia terminar no ano que vem ou em uma centena de anos, o opositor responderia que antes do presente ano, um número infinito de anos já teria passado, então, pelo princípio da correspondência, todos os números já devem ter sido contados agora. Mas este raciocínio volta-se contra o opositor: pois, como vimos, nesta explicação o contador já deveria ter terminado de contar todos os números em qualquer ponto do passado, já que existe uma correspondência um-a-um entre os anos do passado e os números negativos. Portanto, não há equívoco entre contar um número infinito e contar todos os números. Entretanto, neste ponto um absurdo mais profundo aparece à vista: suponha que haja outro contador que faça a contagem no ritmo de um número negativo por dia. De acordo com o Princípio da Correspondência, que fundamenta a teoria dos conjuntos infinitos e a aritmética transfinita, ambos os contadores eternos terminarão suas contagens no mesmo momento, mesmo que um esteja contando em um ritmo 365 vezes mais rápido que o outro! Será que alguém pode acreditar que estes cenários podem, de fato, serem obtidos na realidade, ao invés de representarem o produto de um jogo imaginário jogado em uma esfera puramente conceitual de acordo com convenções lógicas adotadas e axiomas?

No que diz respeito à premissa (2.22), muitos pensadores objetaram que não precisamos considerar o passado como uma série infinita sem começo e com um fim no presente. Popper, por exemplo, admite que o conjunto de todos os eventos passados seja realmente infinito, mas que as séries de eventos passados são potencialmente infinitas. Isto pode ser visto começando-se no presente e numerando os eventos regressivamente, formando assim um infinito potencial. Portanto, o problema de um infinito real ser formado por adição sucessiva não aparece18. De maneira similar, Swinburne pensa que é duvidoso que uma série completa infinita sem início, mas com um fim faça sentido, mas ele propõe resolver o problema ao começar no presente e regressar ao passado, então a série de eventos passados não teria um fim e seria, portanto, um infinito completo19. Esta objeção, entretanto, confunde claramente a contagem regressiva mental com o progresso real das séries temporais dos eventos em si. Numerar as séries regressivamente a partir do presente mostra apenas que se há um número infinito de eventos passados, então podemos numerar um número infinito de eventos passados. Mas o problema é: como esta coleção infinita de eventos veio a ser formada por adição sucessiva? Como concebemos mentalmente as séries não afetam de maneira alguma o caráter ontológico das séries em si como uma série sem início, mas com um fim, ou, em outras palavras, como um infinito real completado por adição sucessiva.

Novamente, as objeções a (2.21) e (2.22) parecem menos plausíveis do que as premissas em si. Juntas elas implicam (2.23), ou seja, que o universo começou a existir.

PRIMEIRA CONFIRMAÇÃO CIENTÍFICA

Estes argumentos puramente filosóficos para o começo do universo receberam confirmações extraordinárias a partir de descobertas na astronomia e na astrofísica no século XX. Estas confirmações podem ser resumidas em dois pontos: a confirmação da expansão do universo e a confirmação das propriedades termodinâmicas do universo.

Com relação ao primeiro, a descoberta de Hubble em 1929 do desvio para o vermelho na luz de galáxias distantes iniciou uma revolução na astronomia talvez tão significante como a revolução Copérnica. Antes disso, o universo como um todo era concebido como estático; mas a conclusão impressionante a que Hubble chegou foi que o desvio para o vermelho é devido ao fato de que o universo está, de fato, expandindo-se. A incrível implicação deste fato é que se alguém traça a expansão de volta no tempo, o universo se torna denso e mais denso até que se chega ao ponto de densidade infinita, do qual o universo começou a expandir. A conclusão da descoberta de Hubble é que em algum ponto do passado finito - provavelmente há 15 bilhões de anos atrás - o universo inteiro se contraiu em um ponto matemático simples que marcou a origem do universo. Esta explosão inicial veio a ser chamada “Big Bang”. Quatro dos mais proeminentes astrônomos do mundo descreveram tal evento nestas palavras:

O universo começou de um estado de densidade infinita… Espaço e tempo foram criados neste evento e também toda a matéria do universo. Não faz sentido perguntar o que aconteceu antes do Big Bang, é como perguntar qual é o norte do Pólo Norte. Da mesma forma, não é sensato perguntar onde o Big Bang se localizou. O universo-ponto não foi um objeto isolado no espaço; ele era o universo completo, e, portanto, a resposta só pode ser que o Big Bang começou em todo lugar20.
Este evento que marcou o início do universo torna-se mais impressionante quando se reflete no fato de que um estado de “densidade infinita” é sinônimo de “nada”. Não pode haver um objeto que possui densidade infinita, porque se ele tivesse qualquer tamanho ele poderia ser até mais denso. Portanto, como o astrônomo de Cambridge Fred Hoyle apontou, a teoria do Big Bang requer a criação da matéria do nada. Isto porque quando se volta no tempo, chega-se ao ponto em que, nas palavras de Hoyle, o universo foi “reduzido a nada”21. Portanto, o que o modelo do Big Bang parece requerer que o universo começou a existir e foi criado do nada.

Alguns teóricos tentaram evitar o início absoluto do universo implicado pela teoria do Big Bang ao especular que o universo pode ter passado por séries infinitas de expansões e contrações. Existem, porém, bons fundamentos para questionar a adequação de tal modelo oscilante do universo: (i) o modelo oscilante parece ser fisicamente impossível. Apesar de toda discussão sobre esses modelos, o fato parece ser que eles são possíveis apenas teoricamente, mas não possivelmente. Como o falecido professor Tinsley de Yale explica, em modelos oscilantes “mesmo que os matemáticos digam que o universo oscila, não há física conhecida para reverter o colapso e saltar para uma nova expansão. Os físicos parecem dizer que aqueles modelos começam do Big Bang, expandem, colapsam e então acabam”22. Para que o modelo oscilante possa ser correto, parece que as leis conhecidas da física teriam que ser revisadas. (ii) O modelo oscilante parece ser observadamente indefensável. Dois fatos da astronomia observacional parecem ir contra o modelo oscilante. Primeiro, a homogeneidade observada da distribuição da matéria através do universo parece inexplicável em um modelo oscilante. Durante a fase de contração de tal modelo, buracos negros começam a engolir a matéria ao redor, resultando em uma distribuição da matéria sem homogeneidade. Mas não há nenhum mecanismo conhecido para resolver esta falta de homogeneidade durante a fase de expansão seguinte. Portanto, a homogeneidade da matéria observada através do universo continua sem explicação. Segundo, a densidade do universo parece ser insuficiente para a re-contração do universo. Para que o modelo oscilante seja até mesmo possível, é necessário que o universo seja suficientemente denso para que a gravidade possa superar a força da expansão e puxar o universo de volta novamente. Entretanto, de acordo com as melhores estimativas, se alguém levar em consideração tanto a matéria luminosa quanto a matéria não-luminosa (encontrada em halos galácticos) como qualquer contribuição das partículas de neutrinos para a massa total, o universo continua tendo apenas metade do que é necessário para a re-contração 23. Além disso, trabalhos recentes em calcular a velocidade e desaceleração da expansão confirmam que o universo está expandindo na chamada “velocidade de escape” e não vai, portanto, se re-contrair. De acordo com Sandage e Tammann, “Portanto, somos forçados a concluir que… parece inevitável que o universo irá se expandir para sempre”; eles concluem, portanto, que “o Universo aconteceu apenas uma vez.” 24.

SEGUNDA CONFIRMAÇÃO CIENTÍFICA

Como se não fosse o bastante, existe uma segunda confirmação científica do início do universo baseada nas propriedades termodinâmicas de vários modelos cosmológicos. De acordo com a segunda lei da termodinâmica, processos que agem em um sistema fechado sempre tendem a um estado de equilíbrio. Assim, nosso interesse está nas implicações disso quando a lei é aplicada ao universo como um todo. Pois o universo é um gigantesco sistema fechado, já que é tudo o que existe e não há energia fluindo para dentro do exterior. A segunda lei da termodinâmica parece implicar que, dado tempo suficiente, o universo irá atingir um estado de equilíbrio termodinâmico conhecido como “morte térmica” do universo. Esta morte pode ser quente ou fria, dependendo do universo expandir para sempre ou de eventualmente contrair-se novamente. Por um lado, se a densidade do universo é grande o bastante para superar a força da expansão, então o universo irá se contrair novamente em uma bola de fogo. Quando o universo se contrai, as estrelas queimam mais rapidamente até finalmente explodirem ou evaporarem. Quando o universo se torna mais denso, os buracos negros começam a engolir tudo o que há em volta e a aglutinarem-se eles próprios até que todos os buracos negros finalmente aglutinem-se em um gigantesco buraco negro de igual extensão com o universo, de onde ele jamais voltará a surgir. Por outro lado, se a densidade do universo é insuficiente para parar a expansão, como parece mais provável, então as galáxias irão transformar todos seus gases em estrelas e as estrelas irão se consumir. Em 1030 anos o universo irá consistir de 90% de estrelas mortas, 9% de buracos negros super-massivos e 1% de matéria atômica. A física de partículas elementares sugere que depois os prótons irão se decair em elétrons e pósitrons, tornando o espaço cheio de um gás rarefeito tão ralo que a distância entre um elétron e um pósitron será do tamanho da presente galáxia. Em 10100 anos, alguns cientistas acreditam que os buracos negros em si irão se dissipar em radiação e partículas elementares. Eventualmente toda matéria no universo frio, escuro e eternamente em expansão, será reduzida a um gás ultra-ralo de partículas elementares e radiação. O equilíbrio irá prevalecer, e todo o universo atingirá o estado final, onde nenhuma mudança ocorrerá.

A questão que precisa ser respondida é esta: se, dado tempo suficiente, o universo irá atingir a morte térmica, então porque não está agora em um estado de morte térmica se ele existiu por um tempo infinito? Se o universo não começou a existir, então ele devia estar agora em um estado de equilíbrio. Alguns teóricos sugeriram que o universo escapa da morte térmica final ao oscilar do passado eterno ao futuro eterno. Mas já vimos que tal modelo parece ser fisicamente e observadamente inviável. Mas mesmo que evitemos tais considerações e imaginemos que o universo oscila, o fato é que as propriedades termodinâmicas deste modelo implicam o exato começo do universo que seus proponentes tentam evitar. Pois as propriedades termodinâmicas de um modelo oscilante são tais que o universo expande mais longe e mais longe a cada ciclo sucessivo. Portanto, quando se traça as expansões de volta no tempo, eles se tornam menores e menores. Como um time científico explica, “O efeito da produção de entropia será alargar a escala cósmica de ciclo a ciclo…Portanto, olhando de volta no tempo, cada ciclo gerou menos entropia, teve um ciclo de tempo menor, e teve um fator de expansão do ciclo menor do que o ciclo que o seguiu.” 25. Novikov e Zeldovich do Instituto de Matemática Aplicada da Academia de Ciências da URSS portanto concluem: “O modelo multi-ciclo tem um futuro infinito, mas apenas um passado finito”26. Como outro escritor aponta, o modelo oscilante do universo, portanto, ainda requer uma origem do universo anterior ao menor ciclo27.

Portanto, para qualquer cenário que alguém escolha para o futuro do universo, a termodinâmica implica que o universo começou a existir. De acordo com o físico P.C. Davies, o universo deve ter sido criado um tempo finito atrás e está em um processo de término. Antes da criação, o universo simplesmente não existia. Portanto, conclui Davies, mesmo que não gostemos, devemos concluir que a energia do universo foi de alguma maneira simplesmente “colocada” na criação como uma condição inicial 28.

Portanto temos confirmações científicas e filosóficas para o início do universo. Com este fundamento, penso que estamos amplamente justificados em concluir pela verdade da premissa (2) que o universo começou a existir.

PRIMEIRA PREMISSA

A premissa (1) impressiona-me como relativamente incontroversa. Ela é baseada na intuição metafísica de que algo não pode vir do nada. Portanto, qualquer argumento em favor do princípio está sujeito a ser menos óbvio que o princípio em si mesmo. Até mesmo o grande cético David Hume admitiu que ele nunca afirmou uma proposição tão absurda como que algo possa vir à existência sem uma causa; ele apenas negou que alguém poderia provar o obviamente verdadeiro princípio causal29. Com relação ao universo, se originalmente não houve nada - nem Deus, nem espaço, nem tempo -, então como poderia o universo possivelmente vir a existir? A verdade do princípio ex nihilo, nihil fit é tão óbvio que eu penso que somos justificados em abrir mão de uma defesa elaborada da primeira premissa do argumento.

Todavia, alguns pensadores, ao exercitarem evitar o teísmo implícito nesta premissa dentro do presente contexto, sentiram compelidos a negar sua verdade. De maneira a evitar suas conclusões teístas, Davies apresenta um cenário em que ele confessa que “não deveria ser levado muito a sério”, mas que parece exercer uma forte atração para Davies30. Ele faz referência a uma teoria quântica da gravidade de acordo com a qual o espaço-tempo em si poderia trazer o não-causado à existência do absolutamente nada. Enquanto admite que “não há uma teoria quântica da gravidade satisfatória,” tal teoria “poderia permitir que o espaço-tempo fosse criado e destruído espontaneamente e sem uma causa da mesma maneira que partículas são criadas e destruídas espontaneamente e sem uma causa. A teoria iria implicar certa probabilidade determinada e matemática de que, por exemplo, uma bolha de espaço iria aparecer onde nada havia antes. Portanto, o espaço-tempo poderia sair do nada como resultado de uma transição quântica sem causa”31.

Em verdade, a criação de pares de partículas não fornece analogia para este vir-a-ser ex-nihilo radical, como Davies parece sugerir. Este fenômeno quântico, mesmo que fosse uma exceção ao princípio de que todo evento tem uma causa, não fornece analogia para algo vindo à existência do nada. Embora os físicos falem disto como criação de pares de partículas e destruição, estes termos são filosoficamente enganosos, porque tudo o que realmente ocorre é conversão de energia em matéria ou vice versa. Como Davies admite, “O processo descrito aqui não representa a criação de matéria do nada, mas a conversão de energia pré-existente em forma de matéria.”32 Portanto, Davies ilude grandemente seu leitor quando ele afirma que “Partículas… podem aparecer do nada sem uma causa específica” e novamente, “Ainda, o mundo da física quântica produz rotineiramente algo do nada”33 Ao contrário, o mundo da física quântica nunca produz algo do nada.

Entretanto, para considerar o caso em seus próprios méritos: a gravidade quântica é tão pouco compreendida que o período anterior a 10-43 segundo que esta teoria espera descrever, tem sido comparada por um engraçadinho como as regiões nos mapas dos antigos cartógrafos marcadas com “Aqui há dragões”: ele pode ser facilmente enchido com toda sorte de fantasias. De fato, não parece haver uma boa razão para se pensar que tal teoria iria envolver o tipo de vir-a-ser ex-nihilo espontâneo que Davies sugere. Uma teoria da gravidade quântica tem sido o objetivo para arranjar uma teoria da gravidade baseada na troca de partículas (gravitões) ao invés da geometria do espaço, o que pode ser trazido para uma Teoria da Grande Unificação que une todas as forças da natureza em um estado super-simétrico no qual uma força fundamental e um tipo simples de partícula existem. Mas não parece haver nada nisso que sugira a possibilidade do vir-a-ser ex-nihilo espontâneo.

Em verdade, não está de todo claro que a explicação de Davies seja até mesmo inteligível. O que pode significar, por exemplo, através da afirmação de que há uma probabilidade matemática de que o nada deveria gerar uma região de espaço-tempo “onde nada existia antes?” Isto não pode significar que, dado tempo suficiente, uma região do espaço iria pular à existência em certo lugar, já que nem o lugar e nem o tempo existem separados do espaço-tempo. A noção de certa probabilidade de algo saindo do nada, portanto, parece incoerente.

Nesta linha de idéias, sou lembrado de algumas observações de A.N. Prior relacionadas ao argumento colocado por Jonathan Edwards contra algo vindo à existência sem uma causa. Isto seria impossível, disse Edwards, pois então seria inexplicável porque toda e qualquer coisa não poderiam ou não viriam chegar à existência sem uma causa, já que antes de suas existências eles não possuem naturezas que poderiam controlar suas vindas-a-existência. Prior fez uma aplicação cosmológica do raciocínio de Edwards ao comentar sobre a teoria do estado estacionário quando esta postula a criação contínua de átomos de hidrogênio ex-nihilo:

Não faz parte da teoria de Hoyle que este processo seja sem causa, mas eu quero me definir melhor sobre isto, e dizer que se ele é sem causa, então o que se alega acontecer é fantástico e inacreditável. Se for possível que objetos - em verdade, objetos que realmente são objetos, “substâncias possuidoras de capacidades” - venham a existir sem uma causa, então é inacreditável que eles venham a se tornar objetos do mesmo tipo, ou seja, átomos de hidrogênio. A natureza peculiar dos átomos de hidrogênio não pode ser o que faz esse vir-a-existência possível para eles e nem para objetos de qualquer outro tipo; pois os átomos de hidrogênio não possuem esta natureza até que eles venham a tê-la, isto é, até que suas vindas-a-existência tenham ocorrido. Este é o argumento de Edwards, de fato, e aqui ele parece inteiramente convincente…34
No caso em questão, se originariamente nada existia, então por que o vazio deveria trazer à existência o espaço-tempo espontaneamente, ao invés de, digamos, átomos de hidrogênio, ou até mesmo coelhos? Como alguém pode falar da probabilidade de algo em particular pular para a existência a partir do nada?

Davies em certa ocasião pareceu responder que as leis da física são o fator de controle que determina o que irá saltar sem causa à existência. “Mas qual das leis? Elas devem estar ‘ali’ para o início de modo que o universo possa vir a existir. A física quântica deve existir (em algum sentido) de modo que a transição quântica possa gerar o cosmo em primeiro lugar”35 Em verdade isto parece excessivamente estranho. Davies parece atribuir às leis da natureza um tipo de status causal e ontológico tal que elas forçam um vir-a-ser espontâneo. Mas isto parece claramente enganoso: as leis da física não causam ou forçam nada por si mesmas; elas são apenas descrições proposicionais de certa forma e generalidade que ocorre no universo. E a questão que Edwards levanta é por que, se não há absolutamente nada, seria verdade que qualquer coisa ao invés de outra deveria saltar à existência sem uma causa? É fútil dizer que de alguma forma pertence à natureza do espaço-tempo fazer isso, pois se não houvesse absolutamente nada então não haveria nenhuma natureza para determinar que tal espaço-tempo devesse vir a existir.

Até mesmo de forma mais fundamental, todavia, o que Davies antevê certamente é tolice metafísica.Apesar de seu cenário ser colocado como uma teoria científica, alguém precisa ser corajoso o bastante para dizer que o Imperador não está vestindo nenhuma roupa. Ambas as condições suficientes e necessárias para o surgimento do espaço-tempo existiam ou não; se existiam, então não é verdade que nada existiu; se não existiam, então parece ontologicamente impossível que algo deva surgir do absoluto nada. Chamar uma geração espontânea à existência do nada de “transição quântica” ou atribuí-la a “gravidade quântica” não explica nada; de fato, nesta teoria, não há explicação. Ela apenas acontece.

Parece-me, portanto, que Davies não forneceu nenhuma base plausível para negar a verdade da primeira premissa do argumento cosmológico. Que tudo o que existe tem uma causa parece ser uma verdade ontologicamente necessária, uma que é constantemente confirmada em nossa experiência.

CONCLUSÃO

Dada a verdade das premissas (1) e (2), segue logicamente que (3) o universo deve ter uma causa para sua existência. De fato, penso que pode ser plausivelmente argumentado que a causa do universo deve ser um Criador pessoal. Pois como poderia um efeito temporal surgir de uma causa eterna? Se a causa fosse simplesmente um conjunto mecânico e operacional de condições suficientes e necessárias que existem desde a eternidade, então por que o efeito não existiria também desde a eternidade? Por exemplo, se a causa da água ser congelada é a temperatura abaixo de zero grau, então se a temperatura estivesse abaixo de zero grau desde a eternidade, qualquer água presente estaria congelada desde a eternidade. O único meio de se obter uma causa eterna com um efeito temporal seria se a causa fosse um agente pessoal que livremente escolhe criar um efeito no tempo. Por exemplo, um homem sentado na eternidade pode querer se levantar; portanto, um efeito temporal pode surgir de um agente eternamente existente. De fato, o agente pode criar da eternidade um efeito temporal tal que nenhuma mudança no agente necessite ser concebida. Portanto, somos trazidos não somente à primeira causa do universo, mas ao seu Criador pessoal.

CONCLUSÃO E SUMÁRIO

Em conclusão, vimos com base em argumentos filosóficos e confirmações científicas que é plausível que o universo teve um começo. Dado o princípio intuitivamente óbvio de que tudo que começa a existir tem uma causa para sua existência, somos levados a concluir que o universo tem uma causa para a sua existência. Com base no nosso argumento, esta causa deve ser não-causada, eterna, imutável, atemporal e imaterial. Além disso, ela deve ser um agente pessoal que livremente escolhe criar um efeito no tempo. Portanto, com fundamento no argumento cosmológico de kalam, concluo que é racional crer que Deus existe.

NOTAS

1. G.W. Leibniz, “The Principles of Nature and of Grace, Based on Reason,” in Leibniz Selections, ed. Philip P. Wiener, The Modern Student’s Library (New York: Charles Scribner’s Sons, 1951), p. 527.

2. Aristotle Metaphysica Lambda. l. 982b10-15.

3. Norman Malcolm, Ludwig Wittgenstein: A Memoir (London: Oxford University Press, 1958), p. 70.

4. J.J.C. Smart, “The Existence of God,” Church Quarterly Review 156 (1955): 194.

5. G.W. Leibniz, Theodicy: Essays on the Goodness of God, the Freedom of Man, and the Origin of Evil, trans. E.M. Huggard (London: Routledge & Kegan Paul, 1951), p. 127; cf. idem, “Principles,” p. 528.

6. John Hick, “God as Necessary Being,” Journal of Philosophy 57 (1960): 733-4.

7. David Hume, Dialogues concerning Natural Religion, ed. com uma introdução escrita por Norman Kemp Smith, Library of the Liberal Arts (Indianapolis: Bobbs-Merrill. 1947), p. 190.

8. Bertrand Russell and F.C. Copleston, “The Existence of God,” in The Existence of God, ed. com uma introdução escrita por John Hick, Problems of Philosophy Series (New York: Macmillan & Co., 1964), p. 175.

9. Vide William Lane Craig, The Cosmological Argument from Plato to Leibniz, Library of Philosophy and Religion (London: Macmillan, 1980), pp. 48-58, 61-76, 98-104, 128-31.

10. Wallace Matson, The Existence of God (Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1965), pp. 58-60.

11. J.L. Mackie, The Miracle of Theism (Oxford: Clarendon Press, 1982), p. 93.

12. Quentin Smith, “Infinity and the Past,” Philosophy of Science 54 (1987): 69.

13. Richard Sorabji, Time, Creation and the Continuum (Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1983), pp. 213, 222-3.

14. Charles Hartshorne, Man’s Vision of God and the Logic of Theism (Chicago: Willett, Clark, & Co., 1941), p. 37.

15 G.J. Whitrow defende uma forma deste argumento que não pressupõe uma visão dinâmica do tempo, afirmando que um passado infinito ainda teria que ser “vivido através” de qualquer ser consciente, eterno, mesmo que as séries de eventos físicos tenham subsistido eternamente (G.J. Whitrow, The Natural Philosophy of Time, 2d ed. [Oxford: Clarendon Press, 1980], pp. 28-32).

16. Mackie, Theism, p. 93.

17. Sorabji, Time, Creation, and the Continuum, pp. 219-22.

18. K.R. Popper, “On the Possibility of an Infinite Past: a Reply to Whitrow,” British Journal for the Philosophy of Science 29 (1978): 47-8.

19. R.G. Swinburne, “The Beginning of the Universe,” The Aristotelian Society 40 (1966): 131-2.

20. Richard J. Gott, et.al., “Will the Universe Expand Forever?” Scientific American (March 1976), p. 65.

21. Fred Hoyle, From Stonehenge to Modern Cosmology (San Francisco: W.H. Freeman, 1972), p. 36.

22. Beatrice Tinsley, carta pessoal.

23. David N. Schramm and Gary Steigman, “Relic Neutrinos and the Density of the Universe,” Astrophysical Journal 243 (1981): p. 1-7.

24. Alan Sandage and G.A. Tammann, “Steps Toward the Hubble Constant. VII,” Astrophyscial Journal 210 (1976): 23, 7; veja tambémidem, “Steps toward the Hubble Constant. VIII.” Astrophysical Journal 256 (1982): 339-45.

25. Duane Dicus, et.al. “Effects of Proton Decay on the Cosmological Future.” Astrophysical Journal 252 (1982): l, 8.

26. I.D. Novikov e Ya. B. Zeldovich, “Physical Processes Near Cosmological Singularities,” Annual Review of Astronomy and Astrophysics 11 (1973): 401-2.

27. John Gribbin, “Oscillating Universe Bounces Back,” Nature 259 (1976): 16.

28. P.C.W. Davies, The Physics of Time Asymmetry (London: Surrey University Press, 1974), p. 104.

29. David Hume para John Stewart, February, 1754, in The Letters of David Hume, ed. J.Y.T. Greig (Oxford: Clarendon Press, 1932), 1:187.

30. Paul Davies, God and the New Physics (New York: Simon & Schuster, 1983), p. 214.

31. Ibid., p. 215.

32. Ibid., p. 31.

33. Ibid., pp. 215, 216.

34. A.N. Prior, “Limited Indeterminism,” in Papers on Time and Tense (Oxford: Clarendon Press, 1968), p. 65.

35. Davies, God, p. 217.

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3 Re: O argumento cosmológico kalam em Dom Jan 31, 2010 6:49 pm

http://dmurcho.com/docs/cosmologico.pdf

25
Capítulo 2
O argumento cosmológico
O argumento cosmológico tradicional
Desde a antiguidade que as pessoas dadas à reflexão procuram justificar as suas
crenças religiosas. Talvez a crença mais fundamental que se procurou justificar seja a
crença de que Deus existe. Em geral, a tentativa de justificar a crença na existência de
Deus começou quer por factos acessíveis tanto a crentes quanto a descrentes, quer por
factos que normalmente só são acessíveis aos crentes, como a experiência directa de
Deus. Neste capítulo e nos dois seguintes, consideraremos algumas das principais tentativas
de justificar a crença em Deus apelando a factos supostamente acessíveis a
qualquer pessoa racional, religiosa ou não. Começando por tais factos, teólogos e filósofos
desenvolveram argumentos a favor da existência de Deus, argumentos que,
segundo eles, provam que Deus existe, sem margem para dúvida razoável.
É comum dividir‐se os argumentos a favor da existência de Deus em argumentos a
posteriori e argumentos a priori. Um argumento a posteriori depende de um princípio
ou premissa que só se pode conhecer através da nossa experiência do mundo. Um
argumento a priori, por outro lado, assenta supostamente em princípios que se pode
conhecer independentemente da nossa experiência do mundo, reflectindo‐se apenas
neles e compreendendo‐os. Dos três principais argumentos a favor da existência de
Deus — o argumento cosmológico, o argumento do desígnio e o argumento ontológico
— apenas o último é completamente a priori. No argumento cosmológico começase
com factos simples acerca do mundo, como o facto de nele haver coisas cuja existência
é causada por outras coisas. No argumento do desígnio o ponto de partida é um
facto um pouco mais complicado acerca do mundo, o facto de exibir ordem e teleologia.
No argumento ontológico, contudo, começa‐se simplesmente com um conceito de
Deus. Neste capítulo consideraremos o argumento cosmológico; nos dois capítulos
seguintes examinaremos o argumento ontológico e o argumento do desígnio.
Antes de formularmos o argumento cosmológico em si, vamos ponderar algumas
questões bastante gerais acerca do mesmo. Historicamente, remonta aos escritos dos
filósofos gregos, Platão e Aristóteles, mas o fundamental no progresso do argumento
deu‐se nos séculos XIII e XVIII. No século XIII, S. Tomás de Aquino apresentou cinco
argumentos distintos a favor da existência de Deus, dos quais os primeiros três são
versões do argumento cosmológico.1 No primeiro, Tomás começa pelo facto de haver
coisas no mundo que sofrem mudanças e conclui argumentativamente que tem de
haver uma causa última da mudança, que seja ela própria imutável. No segundo,
26
começa pelo facto de haver coisas no mundo cuja existência é claramente causada por
outras coisas e conclui argumentativamente que tem de haver uma causa última de
existência, cuja existência seja incausada. No terceiro argumento, Tomás começa pelo
facto de haver coisas no mundo que não têm sequer de existir, coisas que existem mas
que facilmente imaginamos que poderiam não existir, concluindo argumentativamente
que tem de haver um ser que tem de existir, que existe e que não poderia não existir.
Poder‐se‐ia agora objectar que mesmo que os argumentos de Tomás provassem
para lá de qualquer dúvida a existência de um modificador imutável, de uma causa
incausada e de um ser que não poderia não existir, esses argumentos não conseguem
provar a existência do Deus teísta. Pois o Deus teísta, como vimos, é perfeitamente
bom, omnipotente, omnisciente e criador do mundo, mas distinto e independente
deste. Como sabemos, por exemplo, que o modificador imutável não é malévolo ou
ligeiramente ignorante? A resposta a esta objecção é que o argumento cosmológico
tem duas partes. Na primeira parte trata‐se de provar a existência de um género especial
de ser — por exemplo, um ser que não poderia não existir ou um ser que causa
mudanças nas outras coisas mas é em si imutável. Na segunda parte do argumento
trata‐se de provar que o ser especial, cuja existência se estabeleceu na primeira parte,
tem, e não pode deixar de ter, as características que formam conjuntamente a ideia
teísta de Deus — perfeita bondade, omnipotência, omnisciência e por aí em diante.
Isto significa, portanto, que os três argumentos de Tomás são versões diferentes da
primeira parte apenas do argumento cosmológico. Com efeito, em secções posteriores
da sua Summa Theologica, Tomás procura mostrar que o modificador imutável, a causa
incausada da existência e o ser que tem de existir são um e o mesmo e que este único
ser tem todos os atributos do Deus teísta.
Vimos há pouco que o segundo desenvolvimento fundamental no argumento cosmológico
ocorreu no século XVIII, um desenvolvimento que se reflecte nos textos do
filósofo alemão Gottfried Leibniz (1646–1716) e especialmente nos textos do teólogo e
filósofo inglês Samuel Clarke (1675–1729). Em 1704, Clarke deu uma série de palestras,
publicadas mais tarde com o título A Demonstration of the Being and Attributes of God
[Demonstração da Existência e dos Atributos de Deus]. Estas palestras constituem talvez
a apresentação mais completa, persuasiva e cogente que temos do argumento
cosmológico. As palestras foram lidas pelo principal filósofo céptico setecentista,
David Hume (1711–1776). No seu ataque brilhante à tentativa de justificar a religião no
tribunal da razão, os seus Diálogos Sobre a Religião Natural, Hume apresentou várias
críticas penetrantes aos argumentos de Clarke, críticas que persuadiram muitos filósofos
no período moderno a rejeitar o argumento cosmológico. Ao estudar o argumento,
centrar‐nos‐emos em grande medida na sua forma setecentista e procuraremos avaliar
os seus pontos fortes e fracos à luz das críticas que Hume e outros lhe fizeram.
A primeira parte do argumento cosmológico na sua formulação setecentista procura
provar que há um ser auto‐existente. A segunda parte do argumento procura provar
que o ser auto‐existente é o Deus teísta — ou seja, que tem as características que
27
vimos constituir os elementos fundamentais da ideia teísta de Deus. Consideraremos
sobretudo a primeira parte do argumento, pois é contra a primeira parte que os filósofos,
de Hume a Bertrand Russell, têm apresentado objecções muito importantes.
Ao formular a primeira parte do argumento cosmológico vamos usar dois conceitos
importantes: o conceito de ser dependente e o conceito de ser auto‐existente. Por ser
dependente entendemos um ser cuja existência se explica pela actividade causal de
outras coisas. Recordando a divisão de Anselmo nos três exemplos — «explicado por
outro», «explicado por nada» e «explicado por si próprio» — é claro que um ser
dependente é um ser cuja existência se explica por outro ser. Por ser auto‐existente
entendemos um ser cuja existência se explica pela sua própria natureza. Esta ideia,
como vimos no capítulo anterior, é um elemento essencial do conceito teísta de Deus.
Mais uma vez, nos termos dos três exemplos de Anselmo, um ser auto‐existente é um
ser cuja existência se explica por si própria. Munidos destes dois conceitos, o de ser
dependente e o de ser auto‐existente, podemos agora formular a primeira parte do
argumento cosmológico.
1. Todo os ser (que existe ou que já existiu) ou é um ser dependente ou um ser autoexistente.
2. Nem todo o ser pode ser dependente.
Logo,
3. Existe um ser auto‐existente.
Validade dedutiva
Antes de olhar criticamente para cada uma das suas premissas, note‐se que este
argumento é, para usar uma expressão do vocabulário lógico, dedutivamente válido.
Para saber se um argumento é ou não dedutivamente válido, basta que perguntemos:
se as suas premissas forem verdadeiras, a conclusão tem de ser verdadeira? Se a resposta
for «sim», o argumento é dedutivamente válido. Se a resposta for «não», o
argumento é dedutivamente inválido. Repare‐se que a questão da validade de um
argumento é inteiramente diferente da questão de as suas premissas serem ou não
realmente verdadeiras. O seguinte argumento é inteiramente construído com afirmações
falsas, mas é dedutivamente válido:
1. Cristiano Ronaldo é o presidente de Portugal.
2. O presidente de Portugal é de Beja.
Logo,
3. Cristiano Ronaldo é de Beja.
28
O argumento é dedutivamente válido porque embora as suas premissas sejam falsas,
se fossem verdadeiras a conclusão teria de ser verdadeira. Nem Deus, diria Tomás,
poderia fazer que as premissas deste argumento fossem verdadeiras e a sua conclusão
falsa, pois o poder de Deus só abrange o que é possível, e é uma impossibilidade absoluta
Cristiano Ronaldo ser o presidente, o presidente ser de Beja e no entanto Cristiano
Ronaldo não ser de Beja.
O argumento cosmológico (isto é, a sua primeira parte) é dedutivamente válido. Se
as suas premissas forem verdadeiras, ou se o fossem, a sua conclusão terá de ser verdadeira.
O nosso exemplo sobre Cristiano Ronaldo deixa claro, contudo, que o facto de
um argumento ser dedutivamente válido é insuficiente para estabelecer a verdade da
sua conclusão. O que mais se exige? Evidentemente, que saibamos ou tenhamos uma
base racional para acreditar que as premissas são verdadeiras. Se sabemos que o argumento
cosmológico é dedutivamente válido e podemos estabelecer que as suas premissas
são verdadeiras, teremos assim provado que a sua conclusão é verdadeira. Será
então que as premissas do argumento cosmológico são verdadeiras? Temos de passar
agora a esta questão mais difícil.
O PRS e a primeira premissa
À partida, a primeira premissa poderá parecer uma verdade óbvia ou mesmo trivial.
Mas não é óbvia nem trivial. E se parece óbvia ou trivial, estamos forçosamente a confundir
a ideia de um ser auto‐existente com a ideia de um ser que não é dependente. É
obviamente verdade que qualquer ser ou é dependente (explica‐se por outras coisas)
ou não é dependente (não se explica por outras coisas). Mas o que a nossa premissa
afirma é que qualquer ser ou é dependente (explica‐se por outras coisas) ou é autoexistente
(explica‐se por si próprio). Considere‐se novamente os três casos de Anselmo:
A. Explica‐se por outro.
B. Explica‐se por nada.
C. Explica‐se por si próprio.
A nossa primeira premissa afirma que cada ser que existe (ou já existiu) ou pertence
ao género A ou ao género C. Nega que haja seres do género B. E é esta negação que
torna a primeira premissa simultaneamente importante e controversa. A verdade
óbvia a não confundir com esta negação é a verdade de que todo o ser ou pertence ao
género A ou não pertence ao género A. Embora seja verdade, isto nem é muito importante
nem controverso.
Vimos que Anselmo adoptou como princípio fundamental a ideia de que para tudo
o que existe há uma explicação da sua existência. Como este princípio fundamental
nega que exista ou que tenha existido algo do género B, é óbvio que Anselmo aceitaria
a primeira premissa do nosso argumento cosmológico. Os defensores setecentistas do
29
argumento estavam também convencidos da verdade do princípio fundamental atribuído
a Anselmo. E porque estavam convencidos da sua verdade, aceitaram prontamente
a primeira premissa do argumento cosmológico. Mas no século XVIII, o princípio
fundamental de Anselmo foi mais amplamente elaborado e recebeu o nome princípio
da razão suficiente. Uma vez que este princípio (doravante, PRS) desempenha um
papel tão importante na justificação das premissas do argumento cosmológico, será
útil ponderarmos nele um pouco, antes de continuarmos a nossa investigação da verdade
ou falsidade das premissas do argumento cosmológico.
O PRS, como expresso por Leibniz e Clarke, é um princípio muito geral e compreende‐
se melhor se o decompusermos em duas partes. A primeira parte é simplesmente
uma reposição do princípio de Anselmo, de que tem de haver uma explicação
da existência de todo e qualquer ser. Assim, se encontrarmos um homem numa sala, o
PRS implica que tem de haver uma explicação para o facto de esse homem particular
existir. Um momento de reflexão, contudo, mostra que há muitos factos acerca do
homem além do simples facto de existir. Há o facto de o homem em causa se encontrar
presentemente naquela sala e não noutro lugar qualquer, o facto de estar de boa
saúde e o facto de estar naquele momento a pensar em Paris e não, digamos, em Londres.
O objectivo da segunda parte do PRS é exigir também uma explicação para estes
factos. Podemos formular o PRS, portanto, como o princípio de que tem de haver uma
explicação a) da existência de todo e qualquer ser e b) de qualquer facto positivo, seja ele
qual for. Estamos agora em condições de estudar o papel que este princípio muito
importante desempenha no argumento cosmológico.
Como o defensor do argumento cosmológico aceita as duas partes do PRS, é óbvio
que apelará à primeira parte, PRSa, como justificação da primeira premissa do argumento
cosmológico. Claro que podemos e devemos investigar a questão mais profunda
de saber se o defensor do argumento tem uma justificação racional para aceitar o próprio
PRS. Mas deixaremos esta questão de lado por enquanto. Temos de ver primeiro
se o defensor do argumento tem razão ao pensar que se o PRS for verdadeiro, então
ambas as premissas do argumento cosmológico serão verdadeiras. E acabámos de ver
que se pelo menos a primeira parte do PRS — ou seja, PRSa — for verdadeira, a primeira
premissa do argumento cosmológico será verdadeira. E quanto à segunda premissa?
Por que razões pensa o defensor que esta tem de ser verdadeira?
A segunda premissa
De acordo com a segunda premissa, nem todos os seres que existem podem depender
de outros — isto é, nem todos podem dever a explicação da sua existência a outro
ser ou seres. Supostamente, o defensor do argumento pensa que há algo de fundamentalmente
errado na ideia de que todo o ser que existe depende de outros, que cada ser
existente foi causado por outro ser que por sua vez foi causado por outro ser, e por aí
em diante. Mas o que pensa ele ao certo que esteja errado nesta ideia? Para nos ajudar
30
a compreender o seu pensamento, vamos simplificar as coisas supondo que agora apenas
existe uma coisa, A1, talvez um ser vivo, cuja existência foi causada por outra coisa,
A2, que pereceu pouco depois de ter causado a existência de A1. Suponha‐se além disso
que a existência de A2 foi causada de modo semelhante há algum tempo por A3 e a de
A3 por A4, e por aí fora em direcção ao passado. Cada um destes seres depende de
outro; deve a sua existência ao objecto anterior da série. Se nada tivesse existido além
destes seres, então o que a segunda premissa afirma não seria verdade. Pois se todo o
ser que existe ou já existiu é um A e foi produzido por um A anterior, então todo o ser
que existe ou já existiu dependeria de outro e, consequentemente, a premissa dois do
argumento cosmológico seria falsa. Assim, se o defensor do argumento cosmológico
tiver razão, tem de haver algo errado na ideia de que todo o ser que existe ou existiu é
um A e que todos formam uma série causal: A1 causado por A2, A2 causado por A3, A3
causado por A4… An causado por An+1. Como se propõe o defensor do argumento cosmológico
mostrar que há algo de errado nesta perspectiva?
Uma ideia popular mas incorrecta de como o defensor tenta mostrar que algo está
errado nesta perspectiva, a perspectiva de que todo o ser pode depender de outro, é a
de que a rejeita com o seguinte argumento:
1. Tem de haver um primeiro ser para iniciar qualquer série causal.
2. Se todo o ser fosse dependente não haveria um primeiro ser para iniciar a série causal.
Logo,
3. Nem todo o ser pode ser dependente.
Embora este argumento seja dedutivamente válido e a sua segunda premissa seja
verdadeira, a sua primeira premissa ignora a possibilidade distinta de uma série causal
infinita, sem qualquer primeiro membro. Assim, se regressarmos à nossa série de seres
A, onde cada A depende de outro A, tendo sido produzido pelo A precedente na série
causal, é óbvio que se a série existisse não teria um primeiro membro; para cada A na
série haveria um A precedente que o produziu, ad infinitum. A primeira premissa do
argumento apresentado pressupõe que uma série causal tem de parar num primeiro
membro, algures no passado distante. Mas parece não haver uma boa razão para pressupor
isto.
Os defensores setecentistas do argumento cosmológico reconheceram que a série
causal de seres dependentes pode ser infinita, sem um primeiro membro para iniciar a
série. Rejeitaram contudo a ideia de que todo o ser que existe ou que existiu depende
de outro; não por nesse caso não haver um primeiro membro da série de seres dependentes,
mas porque então o facto de haver e sempre ter havido seres dependentes não
teria explicação. Para compreender o seu raciocínio, regressemos à nossa simplificação
do pressuposto de que as únicas coisas que existem ou já existiram são seres dependentes.
Na nossa simplificação desse pressuposto, apenas um dos seres dependentes
31
existe de cada vez, cada um perecendo à medida que produz o seguinte na série. Talvez
a primeira coisa a observar acerca deste pressuposto seja não haver qualquer indivíduo
A na série causal de seres dependentes cuja existência não se explica — A1 explica‐
se por A2, A2 por A3, e An por An+1. De modo que primeira parte do PRS, PRSa, parece
cumprir‐se. Não há qualquer ser particular cuja existência careça de explicação. O
que falta explicar, então, se todos os particulares A na série causal de seres dependentes
têm uma explicação? Falta explicar a própria série. Ou, como optei por exprimir, o
facto de haver e sempre ter havido seres dependentes. Suponha‐se portanto que perguntamos
por que razão existem e sempre existiram seres A. Não basta afirmar que sempre
houve seres A a produzir outros A — não podemos explicar por que razão sempre
houve seres A afirmando que sempre houve seres A. Tão‐pouco, supondo que nunca
existiram senão seres A, podemos explicar o facto de sempre ter havido A apelando a
qualquer outra coisa que não seja um A — pois tal coisa nunca teria existido. Assim a
suposição de que as únicas coisas que existem ou já existiram dependem de outras
deixa‐nos com um facto para o qual não pode haver explicação — nomeadamente, o
facto de haver seres dependentes em vez de não haver.
Questionando a justificação da segunda premissa
Os críticos do argumento cosmológico levantaram diversas objecções importantes à
afirmação de que se todo o ser fosse dependente, a série ou colecção desses seres não
teria explicação. A nossa compreensão do argumento cosmológico, bem como dos seus
pontos fortes e fracos, será aprofundada por uma consideração cuidadosa destas críticas.
A primeira crítica é que o defensor do argumento cosmológico comete o erro de tratar
a colecção ou série de seres dependentes como se ela própria fosse um ser dependente
e, portanto, exigisse uma explicação da sua existência. Mas, segundo a objecção,
a colecção de seres dependentes não é ela própria um ser dependente, do mesmo
modo que uma colecção de selos não é ela própria um selo.
A segunda crítica é que o defensor comete o erro de inferir que, porque cada membro
da colecção de seres dependentes tem uma causa, a própria colecção tem de ter
uma causa. Mas, como Russell fez notar, tal raciocínio é tão falacioso como inferir que
a espécie humana (isto é, a colecção de seres humanos) tem de ter uma mãe porque
cada membro da colecção (cada ser humano) tem uma mãe.
A terceira crítica é que o defensor do argumento não percebe que haver uma explicação
para uma colecção de coisas não é mais do que haver uma explicação para cada
uma das coisas que formam a colecção. Dado que na colecção (ou série) infinita de
seres dependentes, cada ser que a compõe tem de facto uma explicação — em virtude
de ter sido causado por um membro precedente da colecção — a explicação da colecção,
segundo a crítica, já foi dada. Como Hume comentou:
32
Consideraria bastante irrazoável, depois de lhe mostrar as causas particulares de
cada indivíduo numa colecção de vinte partículas de matéria, que me perguntasse
depois qual fora a causa da totalidade dos vinte. Isto foi satisfatoriamente explicado
quando se explicou a causa das partes.2
Por fim, mesmo que o defensor do argumento cosmológico possa responder satisfatoriamente
a estas objecções, tem ainda de enfrentar uma última objecção à sua engenhosa
tentativa de justificar a segunda premissa do argumento cosmológico. Pois
podemos concordar que se nada existe além de uma colecção infinita de seres dependentes,
a existência da colecção infinita não tem explicação; mas ainda assim recusarmo‐
nos a concluir daqui que há algo de errado na ideia de que todo o ser depende de
outro. Poder‐se‐ia perguntar: por que razão devemos pensar que tudo tem de ter uma
explicação? Que mal tem admitir que o facto de haver e sempre ter havido seres
dependentes é um facto bruto, um facto sem qualquer explicação? Por que tem de
haver uma explicação para tudo, afinal? Temos de ver agora o que se pode responder a
estas diversas objecções.
Respostas às críticas
É seguramente um erro pensar que uma colecção de selos é ela própria um selo e é
muito provavelmente um erro pensar que a colecção de seres dependentes é ela própria
um ser dependente. Mas o mero facto de pensar que tem de haver uma explicação
não só para cada membro da colecção de seres dependentes mas para a própria colecção
não dá ao defensor do argumento uma razão suficiente para concluir que tem de
ver a própria colecção como um ser dependente. A colecção de seres humanos, por
exemplo, não é seguramente ela própria um ser humano. Tendo admitido isto, contudo,
podemos ainda assim procurar explicar por que há uma colecção de seres humanos,
por que razão há coisas como seres humanos de todo em todo. Pelo que o mero
facto de se exigir uma explicação para a colecção de seres dependentes não prova que
quem pede a explicação tem de supor que a própria colecção é apenas mais um ser
dependente.
A segunda crítica atribui o seguinte pedaço de raciocínio ao defensor do argumento
cosmológico:
1. Todos os membros da colecção de seres dependentes têm uma causa ou explicação.
Logo,
2. A colecção de seres dependentes tem uma causa ou explicação.
Como vimos ao apresentar esta crítica, os argumentos deste género não são normalmente
de confiança. Seria um erro concluir que uma colecção de objectos é leve
33
apenas porque cada objecto da colecção é leve, porquanto se a colecção contém muitos
objectos, pode ser muito pesada. Por outro lado, se sabemos que cada berlinde
pesa mais de 28 gramas, podemos inferir validamente que a colecção de berlindes pesa
mais de 28 gramas. Felizmente, contudo, não temos de decidir se a inferência de 1 para
2 é válida ou inválida. Não precisamos de resolver esta questão porque o defensor do
argumento cosmológico não precisa de usar esta inferência para estabelecer que a
colecção de seres dependentes tem de ter uma explicação. Não precisa de usar esta
inferência porque tem no PRS um princípio do qual se segue imediatamente que a
colecção de seres dependentes tem uma causa ou explicação. Pois, segundo o PRS,
todos os factos positivos têm de ter uma explicação. Se é um facto que existe uma
colecção de seres dependentes, então, segundo o PRS, também esse facto tem de ter
uma explicação. De maneira que é ao PRS que o defensor do argumento cosmológico
apela ao concluir que a colecção de seres dependentes tem de ter uma explicação e
não a uma inferência duvidosa a partir da premissa de que cada membro da colecção
tem uma explicação. Parece então que nenhuma das primeiras críticas é suficientemente
forte para levantar qualquer obstáculo sério ao raciocínio usado para sustentar
a segunda premissa do argumento cosmológico.
A terceira objecção afirma que explicar a existência de uma colecção de coisas é o
mesmo que explicar a existência de cada um dos seus membros. Se considerarmos
uma colecção de seres dependentes na qual cada ser que consta na colecção se explica
pelo membro precedente que o causou, é evidente que nenhum membro da colecção
carecerá de uma explicação para a sua existência. Mas, segundo a crítica, se explicámos
a existência de todos os membros de uma colecção, explicámos a existência da colecção
— nada falta explicar. Esta crítica persuasiva, originalmente apresentada por
David Hume, teve uma aceitação considerável no período moderno. Mas a crítica
assenta num pressuposto que o defensor do argumento cosmológico não aceitaria. O
pressuposto é que para explicar a existência de uma colecção de coisas basta explicar a
existência de cada membro da colecção. Ver o que está errado neste pressuposto é
compreender o que está em causa no raciocínio desenvolvido pelo defensor do argumento
cosmológico para estabelecer que nem todo o ser pode ser dependente.
Para a existência da colecção de seres dependentes ter explicação, os defensores
setecentistas teriam evidentemente de exigir que se satisfizesse as seguintes duas condições:
C1. A existência de cada membro da colecção de seres dependentes tem uma explicação.
C2. Há uma explicação da razão por que há quaisquer seres dependentes.
Segundo os defensores do argumento cosmológico, se todo o ser que existe ou já
existiu é um ser dependente — isto é, se o todo da realidade consiste em nada mais do
que uma colecção de seres dependentes — ter‐se‐á satisfeito C1, mas não C2. E como
não se satisfaz C2, não há explicação para a colecção de seres dependentes. A terceira
34
crítica afirma, na verdade, que satisfazendo‐se C1 satisfaz‐se C2 e, como numa colecção
de seres dependentes cada membro se explica por seja o que for que o tenha produzido,
ter‐se‐á satisfeito C1. Logo, ter‐se‐á satisfeito C2 e a colecção de seres dependentes
terá uma explicação.
Embora seja uma questão complicada, considero possível ver‐se que a terceira crítica
assenta num erro: o erro de pensar que satisfazendo‐se C1 se satisfaz forçosamente
C2. Trata‐se de um erro natural, pois é fácil imaginar circunstâncias em que satisfazendo‐
se C1 se satisfaz também C2. Suponha‐se, por exemplo, que no todo da realidade
se inclui não só uma colecção de seres dependentes mas também um ser autoexistente.
Suponha‐se além disso que em vez de cada ser dependente ter sido produzido
por outro ser dependente qualquer, todo o ser dependente foi produzido pelo ser
auto‐existente. Por fim, considere‐se simultaneamente a possibilidade de a colecção de
seres dependentes ser temporalmente finita e ter um primeiro membro, e a possibilidade
de a colecção de seres dependentes se prolongar infinitamente no passado, sem
qualquer primeiro membro. Usando G para representar o ser auto‐existente, pode‐se
esquematizar a primeira possibilidade do seguinte modo:
[INSERIR GRÁFICO DA PÁGINA 28]
Diremos que G sempre existiu e sempre existirá. Podemos pensar em d1 como um
ser dependente que existe presentemente, e em d2, d3, etc., como seres dependentes
que existiram num dado momento do passado, e em dn como o primeiro ser dependente
a existir. Pode‐se representar a segunda possibilidade do seguinte modo:
[INSERIR GRÁFICO DA PÁGINA 29]
Neste diagrama não há qualquer primeiro membro da colecção de seres dependentes.
Cada membro da colecção infinita, porém, se explica por referência ao ser autoexistente
G, que o produziu. O que é interessante em ambos os casos é que a explicação
dada para os membros da colecção de seres dependentes traz em si, pelo menos
parcialmente, uma resposta à questão de saber por que há de todo em todo seres
dependentes. Em ambos os casos podemos explicar por que há seres dependentes
indicando que há um ser auto‐existente que se tem empenhado em produzi‐los. Então,
sabendo nós que a existência de cada membro da colecção de seres dependentes se
explica pelo facto de G o ter produzido, ficámos a saber por que razão há seres dependentes.
Poder‐se‐ia objectar que não saberemos realmente por que há seres dependentes
enquanto não soubermos por que razão G os tem produzido. Mas é óbvio que podíamos
também afirmar que não explicámos realmente a existência de um ser dependente
particular, por exemplo, d3, enquanto não soubermos também não só que G o produziu,
mas por que razão G o produziu. O que precisamos captar, contudo, é que ten35
do nós admitido que a existência de todos os seres dependentes se explica por G,
temos de admitir que o facto de haver seres dependentes foi também explicado. Pelo
que é natural pensar‐se que explicar a existência dos membros da colecção de seres
dependentes nada mais é do que explicar a existência dos seus membros. Pois, como
vimos, explicar a existência da colecção é explicar a existência de cada membro e a
razão por que há de todo em todo seres dependentes. E nos exemplos que considerámos,
ao fazer a primeira (explicar por que cada ser dependente existe) fizemos já a
segunda (explicar por que há de todo em todo seres dependentes). Temos agora de
ver, contudo, que supondo que o todo da realidade consiste apenas numa colecção de
seres dependentes, explicar a existência de cada membro não é o mesmo que explicar
por que razão há seres dependentes.
Nos exemplos que considerámos, saímos da colecção de seres dependentes para
explicar a existência dos membros. Mas se os únicos seres que existem ou já existiram
são dependentes, então cada ser dependente será explicado por outro ser dependente
qualquer, ad infinitum. Isto não significa que haverá um ser dependente particular cuja
existência é inexplicada. Cada ser dependente tem uma explicação da sua existência —
nomeadamente, no ser dependente que o precedeu e produziu. Pelo que se satisfaz C1:
há uma explicação da existência de cada membro da colecção de seres dependentes.
Voltando a C2, contudo, podemos ver que não será satisfeita. Não podemos explicar
por que há (ou alguma vez houve) seres dependentes apelando a todos os membros de
uma colecção infinita de seres dependentes. Pois se a questão a que se tem de responder
é a de saber por que há de todo em todo seres dependentes (ou alguma vez houve),
não podemos responder‐lhe indicando que sempre houve seres dependentes, cada
um dos quais explica a existência de outro ser dependente qualquer. Assim, supondo
que todo o ser é dependente, parece que não haverá explicação da razão por que há
seres dependentes. C2 não será satisfeita. Logo, supondo que todo o ser é dependente,
não haverá qualquer explicação para a existência da colecção de seres dependentes.
A verdade do PRS
Chegamos agora à última crítica ao raciocínio que sustenta a segunda premissa do
argumento cosmológico. Segundo esta crítica, admite‐se que a suposição de que todo
o ser é dependente implica que haverá um facto bruto no universo — isto é, um facto
para o qual não pode haver qualquer explicação. Pois não haverá qualquer explicação
para o facto de existir e sempre ter existido seres dependentes. É este facto bruto que
os defensores do argumento descreviam ao chamar a atenção para que se todo o ser
depende de outro, a existência da própria série ou colecção de seres dependentes carece
de explicação. A última crítica pergunta que mal há em admitir que o universo contém
tal facto bruto e ininteligível. Ao fazer esta pergunta o crítico desafia o princípio
fundamental, PRS, em que assenta o argumento cosmológico. Pois, como vimos, a
primeira premissa do argumento nega que exista um ser cuja existência não tenha
36
explicação. Para sustentar esta premissa o defensor apela à primeira parte do PRS. A
segunda premissa do argumento afirma que nem todo o ser pode depender de outro.
Para sustentar esta premissa o defensor apela à segunda parte do PRS, a parte que
afirma ter de haver uma explicação para todo e qualquer facto positivo.
O defensor raciocina que se todo o ser dependesse de outros, então mesmo que se
satisfizesse a primeira parte do PRS — todo o ser teria uma explicação — violar‐se‐ia a
segunda parte: não haveria explicação para o facto positivo de haver e sempre ter
havido seres dependentes. Em primeiro lugar, como todo o ser é supostamente dependente,
nada haveria fora da colecção de seres dependentes para explicar a existência da
colecção. Em segundo lugar, o facto de cada membro da colecção se explicar por outro
ser dependente qualquer é insuficiente para explicar por que há e sempre houve seres
dependentes. Por fim, nada há na colecção de seres dependentes que sugira que a própria
colecção é auto‐existente. Consequentemente, se todo o ser fosse dependente, o
facto de haver e sempre ter havido seres dependentes não teria explicação. Mas isto
viola a segunda parte do PRS. Pelo que a segunda premissa do argumento cosmológico
tem de ser verdadeira: nem todo o ser pode ser dependente. Esta conclusão, contudo,
não é melhor do que o princípio, PRS, em que assenta. E questionar a verdade do PRS
é o que está em causa na última crítica. Por que, afinal, devemos aceitar a ideia de que
todo o ser e todo o facto positivo têm de ter uma explicação? Por que, resumindo,
devemos acreditar no PRS? Estas são questões importantes e qualquer juízo último do
argumento cosmológico depende de como se lhes responde.
Na sua maioria, os teólogos e filósofos que aceitam o PRS tentaram defendê‐lo de
uma de duas maneiras. Alguns defenderam que se conhece (ou pode conhecer) a verdade
do PRS intuitivamente. Querem com isto dizer que se compreendermos integralmente
e reflectirmos no que o PRS afirma podemos ver que tem de ser verdadeiro.
Sem dúvida que há afirmações cuja verdade se conhece intuitivamente. «Todos os
triângulos têm exactamente três ângulos» ou «Nenhum objecto físico pode ocupar
duas regiões diferentes do espaço ao mesmo tempo» são exemplos de afirmações cuja
verdade podemos apreender compreendendo‐as apenas e reflectindo nelas. A dificuldade
de afirmar que se conhece a verdade do PRS intuitivamente, contudo, é que
diversos filósofos bastante capazes não conseguem, após uma reflexão cuidada,
apreender a sua verdade, e alguns desenvolveram argumentos sérios sustentando a
conclusão de que o princípio é de facto falso.3 É evidente, portanto, que nem todos os
que reflectiram no PRS ficaram persuadidos da sua verdade e há quem esteja convencido
de que há boas razões para pensar que é falso. Mas embora o facto de alguns pensadores
capazes não conseguirem apreender a verdade do PRS, e de poderem mesmo
argumentar que é falso, seja uma razão decisiva para pensar que o PRS não é uma verdade
tão óbvia como, por exemplo, «Nenhum objecto físico pode ocupar duas regiões
diferentes do espaço ao mesmo tempo», não basta para estabelecer que o PRS não é
uma verdade de razão. Talvez nesta fase tudo o que se pode fazer seja reflectir cuidadosamente
no que o PRS afirma e formar um juízo autónomo sobre se é uma verdade
37
fundamental acerca do modo como a realidade tem de ser. E se após reflectir cuidadosamente
no PRS se tiver esta impressão, pode‐se ter justificação racional para o considerar
verdadeiro e, tendo visto que sustenta as premissas do argumento cosmológico,
aceitar como verdadeira a conclusão deste argumento.
A segunda maneira pela qual os filósofos e os teólogos que aceitam o PRS procuraram
defendê‐lo é afirmando que embora se possa desconhecer a sua verdade, é ainda
assim uma pressuposição da razão, um pressuposto fundamental que as pessoas racionais
fazem, reflictam ou não o suficiente para estarem cientes desse pressuposto. É
provavelmente verdade que há alguns pressupostos que todos fazemos acerca do
mundo, pressupostos tão fundamentais que não estamos, maioritariamente, cientes
deles. E suponho que seja talvez verdade que o PRS é um pressuposto deste género.
Que relevância teria esta perspectiva do PRS para o argumento cosmológico? Talvez o
principal a reter seja que mesmo que o PRS seja um pressuposto que todos partilhamos,
as premissas do argumento cosmológico podem ainda assim ser falsas. Pois o
próprio PRS pode ainda assim ser falso. O facto, se é que se trata de um facto, de todos
pressupormos que todo o ser existente e todo o facto positivo têm uma explicação não
implica que nenhum ser existe e nenhum facto positivo se verifica sem que qualquer
deles tenha, respectivamente, uma explicação. A natureza não é obrigada a satisfazer
os nossos pressupostos. Como em tempos comentou o filósofo americano William
James a propósito de outro assunto: «Na grande hospedaria da natureza, raramente os
bolos, a manteiga e o xarope ficam tão suaves e deixam os pratos tão limpos».
O nosso estudo da primeira parte do argumento cosmológico levou‐nos ao princípio
fundamental em que assentam as suas premissas, o princípio da razão suficiente.
Vimos que excepto se o PRS nos parecer algo, depois de uma reflexão ponderada, de
cuja verdade temos a certeza, não podemos razoavelmente afirmar saber que as premissas
do argumento cosmológico são verdadeiras. Claro que podem ser verdadeiras.
Mas a menos que saibamos que são verdadeiras, não podem servir‐nos para estabelecer
a conclusão de que há um ser cuja existência se explica pela sua própria natureza. Se
contudo se mostrasse que embora não saibamos que o PRS é verdadeiro, todos pressupomos,
não obstante, que o PRS é verdadeiro, então, quer o PRS seja ou não verdadeiro,
para ser consistentes devemos aceitar o argumento cosmológico. Pois, como vimos,
as suas premissas implicam a conclusão e parecem de facto seguir‐se do PRS. Mas ninguém
conseguiu ainda mostrar que o PRS é um pressuposto partilhado maioritariamente
ou por todos. Pelo que a nossa conclusão final tem de ser que, à excepção dos
que após uma reflexão ponderada concluem razoavelmente que o PRS é uma verdade
fundamental de razão, o argumento cosmológico não nos dá uma boa base racional
para acreditar que entre os seres que existem há um cuja existência se explica pela sua
própria natureza. E uma vez que a concepção clássica de Deus é a de um ser cuja existência
se explica pela sua própria natureza, além da excepção apontada, o argumento
cosmológico é incapaz de nos dar uma boa base racional para acreditar que Deus existe.
38
O argumento cosmológico kalam
Uma versão do argumento cosmológico que tem a sua origem na filosofia árabe tem
sido também alvo de atenção na filosofia contemporânea da religião. Ao contrário da
versão de Samuel Clarke, que admite a possibilidade de uma série interminável de
acontecimentos que se prolongue infinitamente no passado, segundo o argumento
kalam é impossível que exista um infinito efectivo. Se este aspecto do argumento kalam
está correcto, então, como uma série efectiva de acontecimentos que se prolonga
interminavelmente no passado seria um infinito efectivo, é impossível que exista tal
série. Isto não significa que não pode haver uma série potencialmente infinita, uma
série que em qualquer momento em que a consideramos é finita mas à qual se pode
adicionar sucessivamente elementos ad infinitum. Pois tal série nunca seria efectivamente
infinita. Mas por que razão se afirma que é impossível uma série infinita efectiva
de acontecimentos que levam do passado ao presente? Considere‐se tal série interminável
de acontecimentos do passado. Suponha‐se que cada um destes acontecimentos
demora uma certa quantidade de tempo, por muito pequena que seja, a ocorrer. Por
muito pouco tempo que cada acontecimento leve a ocorrer, afirma‐se que dado não
haver qualquer primeiro acontecimento na série de acontecimentos do passado, nunca
se poderia chegar ao ponto onde estamos, o presente.
Se concedemos a impossibilidade de um infinito efectivo, podemos ter a certeza de
que o nosso universo teve um começo. Pois se o nosso universo nunca teve um começo,
então a série de acontecimentos em que consiste a sua existência temporal do passado
constituiria um infinito efectivo. Contudo, a confiança que temos no facto de o
nosso universo ter tido um começo não tem de se apoiar neste argumento filosófico;
pois segundo as melhores estimativas da ciência actual o nosso universo teve de facto
um começo. Começou a existir há cerca 14,5 mil milhões de anos, o planeta Terra há
cerca de 4,5 mil milhões de anos e os seres vivos na Terra há cerca de 3,5 mil milhões
de anos.
Podemos agora enunciar o primeiro passo do argumento cosmológico kalam do
seguinte modo:
1. Se o nosso universo nunca teve um começo, ocorreu uma série infinita efectiva de
acontecimentos.
2. Uma série infinita efectiva de acontecimentos no tempo é impossível.
Logo,
3. O nosso universo teve um começo.
O segundo passo do argumento kalam levanta a questão de o começo do nosso universo
ter ou não uma causa. É importante ver que, segundo a ciência actual, o começo
do nosso universo assinala também o começo do tempo.4 Assim, não há simplesmente
39
qualquer momento no tempo antes do começo do nosso universo, qualquer momento
prévio em que algo ou alguém pudesse agir de modo a causar o início do nosso universo.
Isto significa que se o nosso universo tivesse uma causa, essa causa (qualquer que
fosse) não podia ter causado o nosso universo, existindo num momento qualquer do
tempo antes de o nosso universo existir, agindo então de maneira a causar a existência
do nosso universo. Como poderia então a existência do nosso universo ter sido causada?
Um eminente defensor do argumento cosmológico kalam, William Lane Craig,
reparou que vários filósofos admitiram a causalidade simultânea. Craig cita um exemplo
dado por Immanuel Kant: o assentar de uma bola pesada numa almofada ser a
causa de uma concavidade nessa almofada. Craig conclui:
Parece não haver qualquer dificuldade conceptual em afirmar que a causa da origem
do universo agiu simultaneamente (ou coincidentemente) ao originar do universo.
Devíamos portanto afirmar que a causa da origem do universo é causalmente anterior ao
Big Bang, embora não lhe seja temporalmente anterior.5
A ideia, portanto, é que o tempo começa com o começo do universo. A causa do
universo, qualquer que seja, não é em si temporal, uma vez que se requer a sua existência
para que o universo (e o tempo) comecem a existir. Que propriedades tem uma
entidade intemporal de ter para causar intemporalmente a existência de um universo
temporal, partindo do princípio de que a razão nos exige que suponhamos que o Big
Bang tem de ter uma causa? Craig pensa que tal entidade teria as propriedades que
constituem o Deus do teísmo tradicional: perfeita bondade, omnisciência e omnipotência.
Permanece a questão de um ser ter realmente de ter ou não estas três propriedades
para ser a causa intemporal do universo temporal. Presumivelmente, um ser
com estas propriedades seria capaz de causar a existência do universo temporal. Mas
ao inferir, a partir do que nos parece ter sido causado (o nosso universo), a natureza
do ser que o causou, não podemos simplesmente pressupor que o ser tem propriedades
que não são de modo algum necessárias para poder ser a causa do nosso universo.
Um ser com poder e conhecimento suficientes para causar um universo temporal não
tem de ter conhecimento absoluto de tudo o que é cognoscível (não tem de ser omnisciente).
Tão‐pouco tem de ser perfeitamente bom. Além disso, se olharmos para a qualidade
de uma parte do que foi produzido, o único planeta no universo com que estamos
familiarizados, dificilmente poderíamos pensar que a causa do nosso universo
teria de ser moralmente perfeita. É muito difícil argumentar que um ser com poder e
conhecimento suficientes, embora carecendo da perfeita bondade, seria incapaz de
causar a existência do nosso universo. Esta objecção, contudo, não mostra que o
argumento cosmológico kalam não pode desempenhar um papel importante na defesa
do teísmo tradicional. Pois o argumento cosmológico, quer na forma tradicional apresentada
por Clarke, quer na versão kalam, é apenas um de vários argumentos importantes
a favor da existência do Deus teísta. Se o argumento kalam sustenta a existência
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de um criador do universo, outro argumento qualquer pode sustentar a conclusão de
que um criador seria moralmente perfeito. E tal como um ramo pode ser insuficiente
para suster um objecto pesado embora um feixe de vários ramos seja suficiente, também
os vários argumentos tomados em conjunto podem ser suficientes para sustentar
a existência de um ser omnisciente, omnipotente, perfeitamente bom e criador do
mundo.
Revisão
1. Formule a primeira parte do argumento cosmológico e descreva o que se entende por
um ser dependente e por um ser auto‐existente.
2. Explique o que se entende por princípio da razão suficiente.
3. Descreva resumidamente as diversas objecções que se tem levantado contra o raciocínio
usado para justificar a afirmação de que nem todo o ser pode ser dependente.
Alguma dessas objecções é boa?
4. Como têm os filósofos procurado defender o princípio da razão suficiente?
5. Se não se conhece a verdade do princípio da razão suficiente, que conclusão devemos
retirar quanto ao argumento cosmológico?
Estudo complementar
1. Discuta a seguinte resposta ao argumento cosmológico:
Talvez possamos explicar a existência do mundo supondo que Deus existe e o criou.
Mas resta‐nos então a existência de Deus. Como vamos explicá‐la? Se afirmamos que a
existência de Deus não tem explicação, podemos afirmar a mesma coisa acerca do
mundo. Se afirmamos que a existência de Deus se explica por si própria, podemos
afirmar a mesma coisa acerca do mundo. Portanto, a hipótese mais simples é ou que o
mundo não tem explicação ou que se explica a si próprio.
2. Na vida humana explicamos constantemente uma coisa através de outra, ainda que
sejamos incapazes de explicar a segunda. Se, em todos os nossos assuntos práticos, as
explicações têm de chegar a um fim, será que isso não mostra que o princípio da razão
suficiente é falso, ou pelo menos que é uma ideia imprática? Discuta.
Notas
1. S. Tomás de Aquino, Summa Theologica, 1a, 2, 3, em The Basic Writings of Saint Thomas
Aquinas, org. Anton C. Pegis (Nova Iorque: Random House, 1945).
2. David Hume, Dialogues Concerning Natural Religion, pt. IX, org. H. D. Aiken (Nova
Iorque: Hafner Publishing Company, 1948), pp. 59–60. [Diálogos Sobre a Religião Natural,
Edições 70, Lisboa, 2005.]
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3. Para uma breve explicação de dois destes argumentos ver o prefácio do meu The Cosmological
Argument (Nova Iorque: Fordham University Press, 1998).
4. Ver a famosa palestra de Stephen Hawking: «The Beginning of Time» em
http://www.hawking.org.uk/lectures/bot.html.
5. «Creation and Big‐Bang Cosmology»,
http://www.leaderu.com/offices/billcraig/docs/creation.html.

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