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Craig no brasil

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1 Craig no brasil em Qua Abr 11, 2012 9:13 pm

http://www.gazetadopovo.com.br/blog/tubodeensaio/?id=1232679&tit=william-lane-craig-filosofo-e-apologista-cristao:-=

Uma palestra na noite de hoje, no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, marca o início da agenda do filósofo e apologista cristão William Lane Craig no Brasil. Craig é muito conhecido por seus livros e, especialmente, por seus debates com nomes importantes do ateísmo militante (e também pelos debates que não ocorreram, como a ocasião recente em que Richard Dawkins recusou um convite). Na manhã de hoje, de seu hotel em São Paulo, Craig conversou com o Tubo de Ensaio por alguns minutos, por telefone, e defendeu que os filósofos sejam mais ativos nos debates sobre a relação entre ciência e religião.


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Divulgação / William Lane Craig está no Brasil pela primeira vez, e fará palestras nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.William Lane Craig está no Brasil pela primeira vez, e fará palestras nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

Por muitos séculos a relação entre ciência e fé foi vista como harmônica, mas hoje o discurso dominante é o do antagonismo. Como isso ocorreu?
Estamos vendo o resultado de um esforço deliberado, iniciado no fim do século 19, de reescrever a história de ciência de acordo com esse modelo de conflito. Até aquela época, o relacionamento entre ciência e teologia era descrito como uma aliança; os melhores cientistas eram cristãos. Mas, entre o fim do século 19 e o início do século 20, houve um forte esforço para reescrever a história da ciência de modo que ela mostrasse a existência de um antagonismo histórico. Nesse sentido, Andrew Dickson White criou o paradigma deste modelo de conflito com seu livro Uma história da guerra entre a ciência e a tecnologia na Cristandade. Hoje, os historiadores da ciência veem essa obra como uma piada, uma peça de propaganda; os que realmente conhecem a história sabem que o conflito não é uma representação adequada do relacionamento histórico entre ciência e religião. É verdade que essa noção de antagonismo persiste na cultura popular, mas não é mais presente no trabalho acadêmico, nem na Teologia, nem na história da ciência. Neste século 21 estamos no limiar de uma era de mais abertura, por parte da ciência, à possibilidade um criador e designer do universo. É uma abertura que não tem precedentes nas últimas décadas.

Se na academia a percepção já é outra, por que na cultura popular o discurso do conflito ainda persiste? E como trazer para o público em geral aquilo que já está espalhado entre os especialistas?
Sempre existe uma defasagem entre o que ocorre na academia e o que chega à cultura popular. Obviamente é um processo que leva tempo. É necessário haver popularizadores: pessoas que escrevam livros e artigos de jornal direcionados ao público em geral, aos que não têm formação nem em ciência, nem em Teologia, para explicar o diálogo entre ciência e religião que está havendo na academia. Os ateus militantes fazem isso muito bem; cientistas como Richard Dawkins e Lawrence Krauss escrevem e vendem livros que são populares e defendem o ateísmo. Precisamos que gente que seja igualmente bem-sucedida nesse trabalho, mas defendendo a harmonia entre ciência e fé.

Quem seriam hoje esses "popularizadores" da harmonia entre ciência e fé?
John Polkinghorne é um ótimo exemplo, pois ele é físico quântico e também clérigo anglicano, tendo escrito uma série de livros sobre ciência e religião. Outro muito conhecido é Francis Collins, chefe do Projeto Genoma, um biólogo cujas obras também são dirigidas para o público em geral. Alister McGrath é um teólogo que também tem formação em Química, mas escreve mais do ponto de vista teológico. Esses três são mais conhecidos, mas eu também queria destacar o cosmólogo Alexander Vilenkin, da Tufts University. Ele não é cristão; se não me engano, é agnóstico. Seu trabalho de popularização da ciência é muito bom e não tem o preconceito antirreligioso que observamos em outros autores como os já mencionados Dawkins e Krauss.

Algum deles teria o potencial para se tornar um "ícone pop" como foi Carl Sagan?
Sagan teve a grande vantagem de fazer a série Cosmos, que fez dele extremamente popular; ele usava muito bem os meios de comunicação. Entre as vozes que defendem a harmonia entre ciência e fé, não vejo ninguém fazendo algo na escala de Sagan. Esse tipo de presença exige uma pessoa que não apenas seja um expert na área, mas também saiba aparecer na mídia muito bem.

Já que falamos dos meios de comunicação, qual sua avaliação da maneira como a imprensa vem retratando as questões sobre as quais estamos conversando aqui?
A maneira como a mídia popular lida com a popularização da ciência é bem frustrante para mim. Ela segue um roteiro previsível na hora de mostrar a ciência moderna: tenta empurrar interpretações da ciência que são radicais, contrárias ao bom senso e altamente especulativas, em vez de se apoiar nas descobertas sólidas da ciência moderna. O que eu vejo é um esforço deliberado de fazer a ciência moderna parecer metafísica, o que leva a uma abordagem sensacionalista. Isso normalmente é feito com uma série de expressões metafóricas que não ajudam no bom entendimento dos assuntos científicos; chega a ser cansativo. Eu até entendo por que os veículos de comunicação agem assim, já que é da natureza da imprensa buscar o extraordinário, o extremo, o que desafia as concepções arraigadas, porque é o que atrai interesse. Mas não acho que isso ajude a entender o que a ciência moderna realmente diz sobre o mundo.

Como estará a discussão sobre ciência e religião em cinco, ou dez anos?
Não creio que teremos mudanças radicais no caminho que estamos trilhando. Agora cientistas, filósofos e teólogos têm um diálogo saudável em que uns estão abertos ao que os outros oferecem, mas espero que a discussão envolva mais os filósofos. Agora estamos começando a perceber que as áreas que se sobrepõem no diálogo entre ciência e religião estão muito ligadas à Filosofia; como nem teólogos, nem cientistas são muito treinados nesse campo, o diálogo tem interferências porque está ocorrendo entre pessoas que, em geral, são "filosoficamente ingênuas". Um diálogo realmente frutuoso precisa envolver mais filósofos, especialmente os que conheçam filosofia da ciência e a metafísica teológica. Os filósofos serão os mediadores entre as ciências e os teólogos – é um "triálogo", não um diálogo.

Na América Latina em geral, as questões bioéticas normalmente são mais relevantes que o debate sobre as origens do universo ou do homem...
O que eu acabei de dizer sobre a importância da Filosofia se aplica aqui também. A ciência é eticamente neutra, não tem nada a dizer sobre o que bom, mau, certo ou errado. Você não acha valores num tubo de ensaio. Assim, em questões bioéticas é necessário trazer pessoal da Ética, que é justamente uma área da Filosofia. A ciência proporciona a informação – por exemplo, sobre o status biológico do embrião ou do feto; mas não podemos buscar nela valores éticos. Aí precisamos da Filosofia e da Teologia para nos guiar em relação ao que é eticamente permissível. Sem isso caímos no utilitarismo, na ideia de que o tecnicamente viável é moralmente permissível, o que é absurdo, sem justificativa; foi o que levou ao nazismo, o mesmo tipo de raciocínio que justificou a engenharia genética para criar uma super-raça e se livrar dos indesejados e exterminá-los, já que era tecnicamente possível. As pessoas mais sensatas percebem que isso é altamente antiético.


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Divulgação / Segundo Craig, muitos dos temas de intersecção entre ciência e fé estão no domínio da Filosofia.Segundo Craig, muitos dos temas de intersecção entre ciência e fé estão no domínio da Filosofia.

Muitos conhecem suas críticas à teoria da evolução...
Vamos colocar desta maneira: não é que eu seja crítico; eu digo que tenho uma atitude cética em relação a certos aspectos da evolução, porque me parece que eles são motivados mais por pressuposições filosóficas que pela evidência física. Por isso ela não me convence – mas isso não significa que eu não esteja aberto à possibilidade.

Então vamos supor, por um minuto, que a teoria da evolução seja totalmente verdadeira; em ocasiões anteriores, o senhor afirmou que ela não ameaçaria o Cristianismo, ou a crença religiosa. Por quê?
Porque o Deus transcendente que é o criador e o designer do universo poderia muito bem ter determinado o comportamento da natureza e as condições iniciais no Big Bang que levassem ao eventual surgimento de vida inteligente no universo, e não existe motivo para pensar que Ele não pudesse ter feito dessa forma.

E qual a sua avaliação sobre o criacionismo de Terra jovem?
Infelizmente os criacionistas acabam fazendo as pessoas se tornarem mais céticas em relação à religião que em relação à ciência. Se eles tiverem sucesso em mostrar que existe conflito entre o Cristianismo bíblico e a ciência moderna, a reação da cultura popular é descartar o Cristianismo bíblico, não a ciência moderna. Isso será muito contraproducente, já que que esse conflito é ilusório. A melhor estratégia em relação a esse grupo é desacreditar não sua ciência, mas suas crenças religiosas, por exemplo a leitura 100% literal da Bíblia.

Se pensarmos no ateísmo militante e nos criacionistas, qual dos extremos deveria ser considerado mais preocupante?
A maior ameaça vem da filosofia do naturalismo científico; ainda vivemos à sombra do Iluminismo, em que o único árbitro da verdade e fonte do conhecimento é a ciência natural, e por isso algo que não pode ser provado não existe ou não é verdadeiro. Essa filosofia permeia a cultura ocidental moderna.

Qual a sua opinião sobre as recentes tentativas de Stephen Hawking e Lawrence Krauss de demonstrar que o universo surgiu do nada, sem a necessidade de um criador?
É lamentável que estes cientistas tenham representado tão mal a ciência moderna para o público em geral. Se uma pessoa religiosa fizesse isso, seria acusada de distorção, mas com os cientistas isso passa batido. Quando esses homens usam o termo "nada", usam de forma equivocada, em vez de empregar o significado de "não ser". Se me perguntam o que tenho na geladeira, e eu respondo "nada", não significa que existe algo na geladeira, e esse algo seja o nada. Quero dizer é que não há nada. Se você me pergunta o que comi no almoço e respondo "nada", você não me pergunta "e que gosto tem?" (risos). Seria ridículo. Mas esses homens usam o termo "nada" para se referir a algo. O vácuo quântico, um espaço vazio preenchido com energia, é algo, é uma realidade física com propriedades físicas, bem como um certo estado do universo em que as concepções clássicas de espaço e tempo ainda não se aplicam. Krauss chega a dizer que há diferentes tipos de "nada", o que já indica que ele está usando o termo de forma equivocada. O nada não tem nenhuma propriedade, é ridículo falar em diferentes tipos de nada. Isso é uma grotesca distorção da linguagem, uma representação errada da ciência moderna em uma tentativa de convencer leigos de que a ciência pode explicar a origem última do universo.

Eles agem assim por ignorância filosófica ou estão deliberadamente distorcendo o conceito?
Cientistas como Hawking e Krauss não são treinados em Filosofia e são bem ingênuos nesse campo. Eles não entendem as implicações metafísicas do que dizem e caem em uma armadilha criada por suas próprias palavras. Hawking, no começo de seu livro The grand design, diz que a Filosofia está morta e que ela não acompanhou os desenvolvimentos da ciência moderna; agora, cabe aos cientistas conduzir a luz do conhecimento. Essa, por si só, é uma afirmação filosófica – e o resto do livro vai fazendo uma afirmação filosófica após outra. Hawking faz filosofia em vez de ciência e não percebe.

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2 Re: Craig no brasil em Qua Abr 11, 2012 9:14 pm

http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/e-possivel-acreditar-em-deus-usando-a-razao-afirma-william-lane-craig

Quando o escritor britânico Christopher Hitchens, um dos maiores defensores do ateísmo, travou um longo debate nos Estados Unidos, em abril de 2009, com o filósofo e teólogo William Lane Craig sobre a existência de Deus, seus colegas ateus ficaram tensos. Momentos antes de subir ao palco, Hitchens — que morreu em dezembro de 2011. aos 62 anos — falou a jornalistas sobre a expectativa de enfrentar Craig.

"Posso dizer que meus colegas ateus o levam bem a sério", disse. "Ele é considerado um adversário muito duro, rigoroso, culto e formidável", continuou. "Normalmente as pessoas não me dizem 'boa sorte' ou 'não nos decepcione' antes de um debate — mas hoje, é o tipo de coisa que estão me dizendo". Difícil saber se houve um vencedor do debate. O certo é que Craig se destaca pela elegância com que apresenta seus argumentos, mesmo quando submetido ao fogo cerrado.

O teólogo evangélico é considerado um dos maiores defensores da doutrina cristã na atualidade. Craig, que vive em Atlanta (EUA) com a esposa, sustenta que a existência de Deus e a ressurreição de Jesus, por exemplo, não são apenas questões de fé, mas passíveis de prova lógica e racional. Em seu currículo de debates estão o famoso químico e autor britânico Peter Atkins e o neurocientista americano Sam Harris (veja lista com vídeos legendados de Craig). Basta uma rápida procura no Youtube para encontrar uma vastidão de debates travados entre Craig e diversos estudiosos. Richard Dawkins, um dos maiores críticos do teísmo, ainda se recusa a discutir com Craig sobre a existência de Deus.

Em artigo publicado no jornal inglês The Guardian, Dawkins afirma que Craig faz apologia ao genocídio, por defender passagens da Bíblia que justificam a morte de homens, mulheres e crianças por meio de ordens divinas. "Vocês apertariam a mão de um homem que escreve esse tipo de coisa? Vocês compartilhariam o mesmo palco que ele? Eu não, eu me recuso", escreveu. Na entrevista abaixo, Craig fala sobre o assunto.

Autor de diversos livros — entre eles Em Guarda – Defenda a fé cristã com razão e precisão (Ed. Vida Nova), lançado no fim de 2011 no Brasil, — Craig é doutor em filosofia pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e em teologia pela Universidade de Munique, Alemanha. O filósofo esteve no Brasil para o 8º Congresso de Teologia da Editora Vida Nova, em Águas de Lindóia, entre 13 e 16 de março. Durante o simpósio, Craig deu palestras e dedicou a última apresentação a atacar, ponto a ponto, os argumentos de Richard Dawkins sobre a inexistência de Deus.
Perfil

Nome: William Lane Craig
Profissão: Filósofo, teólogo e professor universitário na Universidade de Biola, Califórnia
Nascimento: 23 de agosto de 1949
Livros destacados: Apologética Contemporânea – A veracidade da Fé Cristã; Em Guarda, Defenda a fé cristã com razão e precisão; ambos publicados no Brasil pela editora Vida Nova
Principal contribuição para a filosofia: Craig foi responsável por reformular o Argumento Cosmológico Kalam (variação do argumento cosmológico que defende a existência de uma primeira causa para o universo) nos seguintes termos: 1) Tudo que começa a existir tem uma causa de existência. 2) O universo começou a existir. 3) Portanto, o universo tem uma causa para sua existência.
Informações pessoais: William Lane Craig é conhecido pelo trabalho na filosofia do tempo e na filosofia da religião, especificamente sobre a existência de Deus e na defesa do teísmo cristão. Escreveu e editou mais de 30 livros, é doutor em filosofia e teologia em universidades inglesa e alemã e desde 1996 é pesquisador e professor de filosofia na Universidade de Biola, na Califórnia. Atualmente vive em Atlanta, nos EUA, com a esposa. Craig pratica exercícios regularmente como forma de combater a APM (Atrofia Peronial Muscular) uma doença degenerativa do sistema nervoso que lhe causou atrofiamento dos nervos das mãos e pernas. Especialista em debates desde o ensino médio, o filósofo passa a maior parte do tempo estudando.

Por que deveríamos acreditar em Deus? Porque os argumentos e evidências que apontam para a Sua existência são mais plausíveis do que aqueles que apontam para a negação. Vários argumentos dão força à ideia de que Deus existe. Ele é a melhor explicação para a existência de tudo a partir de um momento no passado finito, e também a para o ajuste preciso do universo, levando ao surgimento de vida inteligente. Deus também é a melhor explicação para a existência de deveres e valores morais objetivos no mundo. Com isso, quero dizer valores e deveres que existem independentemente da opinião humana.

Se Deus é bondade e justiça, por que ele não criou um universo perfeito onde todas as pessoas vivem felizes? Acho que esse é o desejo de Deus. É o que a Bíblia ensina. O fato de que o desejo de Deus não é realizado implica que os seres humanos possuem livre-arbítrio. Não concordo com os teólogos que dizem que Deus determina quem é salvo ou não. Parece-me que os próprios humanos determinam isso. A única razão pela qual algumas pessoas não são salvas é porque elas próprias rejeitam livremente a vontade de Deus de salvá-las.

Alguns cientistas argumentam que o livre-arbítrio não existe. Se esse for o caso, as pessoas poderiam ser julgadas por Deus? Não, elas não poderiam. Acredito que esses autores estão errados. É difícil entender como a concepção do determinismo pode ser racional. Se acreditarmos que tudo é determinado, então até a crença no determinismo foi determinada. Nesse contexto, não se chega a essa conclusão por reflexão racional. Ela seria tão natural e inevitável como um dente que nasce ou uma árvore que dá galhos. Penso que o determinismo, racionalmente, não passa de absurdo. Não é possível acreditar racionalmente nele. Portanto, a atitude racional é negá-lo e acreditar que existe o livre-arbítrio.

O senhor defende em seu site uma passagem do Velho Testamento em que Deus ordena a destruição da cidade de Canaã, inclusive autorizando o genocídio, argumentando que os inocentes mortos nesse massacre seriam salvos pela graça divina. Esse não é um argumento perigosamente próximo daqueles usados por terroristas motivados pela religião? A teoria ética desses terroristas não está errada. Isso, contudo, não quer dizer que eles estão certos. O problema é a crença deles no deus errado. O verdadeiro Deus não ordena atos terroristas e, portanto, eles estariam cometendo uma atrocidade moral. Quero dizer que se Deus decide tirar a vida de uma pessoa inocente, especialmente uma criança, a Sua graça se estende a ela.

Se o terrorista é cristão o ato terrorista motivado pela religião é justificável, por ele acreditar no Deus ‘certo’? Não é suficiente acreditar no deus certo. É preciso garantir que os comandos divinos estão sendo corretamente interpretados. Não acho que Deus dê esse tipo de comando hoje em dia. Os casos do Velho Testamento, como a conquista de Canaã, não representam a vontade normal de Deus.

O sr. está querendo dizer que Deus também está sujeito a variações de humor? Não é plausível esperar que pelo menos Ele seja consistente? Penso que Deus pode fazer exceções aos comandos morais que dá. O principal exemplo no Velho Testamento é a ordem que ele dá a Abraão para sacrificar seu filho Isaque. Se Abraão tivesse feito isso por iniciativa própria, isso seria uma abominação. O deus do Velho Testamento condena o sacrifício infantil. Essa foi uma das razões que o levou a ordenar a destruição das nações pagãs ao redor de Israel. Elas estavam sacrificando crianças aos seus deuses. E, no entanto, Deus dá essa ordem extraordinária a Abraão: sacrificar o próprio filho Isaque. Isso serviu para verificar a obediência e fé dele. Mas isso é a exceção que prova a regra. Não é a forma normal com que Deus conduz os assuntos humanos. Mas porque Deus é Deus, Ele tem a possibilidade de abrir exceções em alguns casos extremos, como esse.

O sr. disse que não é suficiente ter o deus certo, é preciso fazer a interpretação correta dos comandos divinos. Como garantir que a sua interpretação é objetivamente correta? As coisas que digo são baseadas no que Deus nos deu a conhecer sobre si mesmo e em preceitos registrados na Bíblia, que é a palavra d’Ele. Refiro-me a determinações sobre a vida humana, como “não matarás”. Deus condena o sacrifício de crianças, Seu desejo é que amemos uns ao outros. Essa é a Sua moral geral. Seria apenas em casos excepcionalmente extremos, como o de Abraão e Isaque, que Deus mudaria isso. Se eu achar que Deus me comandou a fazer algo que é contra o Seu desejo moral geral, revelado na escritura, o mais provável é que eu tenha entendido errado. Temos a revelação do desejo moral de Deus e é assim que devemos nos comportar.

O sr. deposita grande parte da sua argumentação no conteúdo da Bíblia. Contudo, ela foi escrita por homens em um período restrito, em uma área restrita do mundo, em uma língua restrita, para um grupo específico de pessoas. Que evidência se tem de que a Bíblia é a palavra de um ser sobrenatural? A razão pela qual acreditamos na Bíblia e sua validade é porque acreditamos em Cristo. Ele considerava as escrituras hebraicas como a palavra de Deus. Seus ensinamentos são extensões do que é ensinado no Velho Testamento. Os ensinamentos de Jesus são direcionados à era da Igreja, que o sucederia. A questão, então, se torna a seguinte: temos boas razões para acreditar em Jesus? Ele é quem ele diz ser, a revelação de Deus? Acredito que sim. A ressurreição dos mortos, por exemplo, mostra que ele era quem afirmava.

Existem provas que confirmem a ressurreição de Jesus? Temos boas bases históricas. A palavra ‘prova’ pode ser enganosa porque muitos a associam com matemática. Certamente, não temos prova matemática de qualquer coisa que tenha acontecido na história do homem. Não temos provas, nesse sentido, de que Júlio César foi assassinado no senado romano, por exemplo, mas temos boas bases históricas para isso. Meu argumento é que se você considera os documentos do Novo Testamento como fontes da história antiga, — como os historiadores gregos Tácito, Heródoto ou Tucídides — o evangelho aparece como uma fonte histórica muito confiável para a vida de Jesus de Nazaré. A maioria dos historiadores do Novo Testamento concorda com os fatos fundamentais que balizam a inferência sobre a ressurreição de Cristo. Coisas como a sua execução sob autoridade romana, a descoberta das tumbas vazias por um grupo de mulheres no domingo depois da crucificação e o relato de vários indivíduos e grupos sobre os aparecimentos de Jesus vivo após sua execução. Com isso, nos resta a seguinte pergunta: qual é a melhor explicação para essa sequência de acontecimentos? Penso que a melhor explicação é aquela que os discípulos originais deram — Deus fez Jesus renascer dos mortos. Não podemos falar de uma prova, mas podemos levantar boas bases históricas para dizer que a ressurreição é a melhor explicação para os fatos. E como temos boas razões para acreditar que Cristo era quem dizia ser, portanto temos boas razões para acreditar que seus ensinamentos eram verdade. Sendo assim, podemos ver que a Bíblia não foi criação contingente de um tempo, de um lugar e de certas pessoas, mas é a palavra de Deus para a humanidade.

O textos da Bíblia passaram por diversas revisões ao longo do tempo. Como podemos ter certeza de que as informações às quais temos acesso hoje são as mesmas escritas há 2.000 anos? Além disso, como lidar com o fato de que informações podem ser perdidas durante a tradução? Você tem razão quanto a variedade de revisões e traduções. Por isso, é imperativo voltar às línguas originais nas quais esses textos foram escritos. Hoje, os críticos textuais comparam diferentes manuscritos antigos de modo a reconstruir o que os originais diziam. O Novo Testamento é o livro mais atestado da história antiga, seja em termos de manuscritos encontrados ou em termos de quão próximos eles estão da data original de escrita. Os textos já foram reconstruídos com 99% de precisão em relação aos originais. As incertezas que restam são trivialidades. Por exemplo, na Primeira Epístola de João, ele diz: “Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra”. Mas alguns manuscritos dizem: “Estas coisas vos escrevemos, para que o nosso gozo se cumpra”. Não temos certeza se o texto original diz ‘vosso’ ou ‘nosso’. Isso ilustra como esse 1% de incerteza é trivial. Alguém que realmente queira entender os textos deverá aprender grego, a língua original em que o Novo Testamento foi escrito. Contudo, as pessoas também podem comprar diferentes traduções e compará-las para perceber como o texto se comporta em diferentes versões.

É possível explicar a existência de Deus apenas com a razão? Qual o papel da ciência na explicação das causas do universo? A razão é muito mais ampla do que a ciência. A ciência é uma exploração do mundo físico e natural. A razão, por outro lado, inclui elementos como a lógica, a matemática, a metafísica, a ética, a psicologia e assim por diante. Parte da cegueira de cientistas naturalistas, como Richard Dawkins, é que eles são culpados de algo chamado ‘cientismo’. Como se a ciência fosse a única fonte da verdade. Não acho que podemos explicar Deus em sua plenitude, mas a razão é suficiente para justificar a conclusão de que um criador transcendente do universo existe e é a fonte absoluta de bondade moral.

Por que o cristianismo deveria ser mais importante do que outras religiões que ensinam as mesmas questões fundamentais, como o amor e a caridade? As pessoas não entendem o que é o cristianismo. É por isso que alguns ficam tão ofendidos quando se prega que Jesus é a única forma de salvação. Elas pensam que ser cristão é seguir os ensinamentos éticos de Jesus, como amar ao próximo como a si mesmo. É claro que não é preciso acreditar em Jesus para se fazer isso. Isso não é o cristianismo. O evangelho diz que somos moralmente culpados perante Deus. Espiritualmente, somos separados d’Ele. É por isso que precisamos experimentar Seu perdão e graça. Para isso, é preciso ter um substituto que pague a pena dos nossos pecados. Jesus ofereceu a própria vida como sacrifício por nós. Ao aceitar o que ele fez em nosso nome, podemos ter o perdão de Deus e a limpeza moral. A partir disso, nossa relação com Deus pode ser restaurada. Isso evidencia por que acreditar em Cristo é tão importante. Repudiá-lo é rejeitar a graça de Deus e permanecer espiritualmente separado d’Ele. Se você morre nessa condição você ficará eternamente separado de Deus. Outras religiões não ensinam a mesma coisa.

A crença em Deus é necessária para trazer qualidade de vida e felicidade? Penso que a crença em Deus ajuda, mas não é necessária. Ela pode lhe dar uma fundação para valores morais, propósito de vida e esperança para o futuro. Contudo, se você quiser viver inconsistentemente, é possível ser um ateu feliz, contanto que não se pense nas implicações do ateísmo. Em última análise, o ateísmo prega que não existem valores morais objetivos, que tudo é uma ilusão, que não há propósito e significado para a vida e que somos um subproduto do acaso.

Por que importa se acreditamos no deus do cristianismo ou na ‘mãe natureza’ se na prática as pessoas podem seguir, fundamentalmente, os mesmos ensinamentos? Deveríamos acreditar em uma mentira se isso for bom para a sociedade? As pessoas devem acreditar em uma falsa teoria, só por causa dos benefícios sociais? Eu acho que não. Isso seria uma alucinação. Algumas pessoas passam a acreditar na religião por esse motivo. Já que a religião traz benefícios para a sociedade, mesmo que o indivíduo pense que ela não passa de um ‘conto de fadas’, ele passa a acreditar. Digo que não. Se você acha que a religião é um conto de fadas, não acredite. Mas se o cristianismo é a verdade — como penso que é — temos que acreditar nele independente das consequências. É o que as pessoas racionais fazem, elas acreditam na verdade. A via contrária é o pragmatismo. “Isso Funciona?", perguntam elas. "Não importa se é verdade, quero saber se funciona”. Não estou preocupado se na Suécia alguns são felizes sem acreditar em Deus ou se há alguma vantagem em acreditar n’Ele. Como filósofo, estou interessado no que é verdade e me parece que a existência desse ser transcendente que criou e projetou o universo, fonte dos valores morais, é a verdade.

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